22 de abril de 2024
- Eu adoro o cheiro de café forte pela manhã. - falou Roberta entregando um copo de café a Marília, que estava parada em frente ao elevador daquele prédio antigo.
- Algo não cheira bem.
- Não é o café. Peguei o que você mais gosta e não tem nada de errado com ele, pode beber.
- Não, é sério Rô. Algo não cheira bem...
A porta da escada, atrás das duas investigadoras de polícia se abriu. De lá saiu o Cláudio do 202 com um caderno na mãe e uns fios discretos de suor descendo pela latral da testa.
- Bom dia, senhoras investigadoras. - ele estendeu a mão depois de limpar a testa de suor, o que provocou uma pequena ânsia de vômito em Roberta e um balanço de cabeça de Marília. Entendendo que não conseguiria a formalidade do aperto de mão, ele prosseguiu - Eu fiz algumas anotações e gostaria de repassar com as senhoras, se for possível.
- Anotações sobre o que exatamente, senhor...?
- Cláudio. Cláudio do 202. Anotações sobre o funcionamento do elevador. Eu sou engenheiro e fiquei pensando o que eu poderia fazer para ajudar a solucionar a morte do nosso vizinho Délcio do 102.
- Senhor Cláudio, não entenda de forma rude o que vou dizer, mas talvez o senhor tenha ficado um pouco em choque com a questão do elevador. Não há o que solucionar. Provavelmente seu vizinho teve um mal súbito e deu o azar de estar dentro do elevador no momento. Não teria nada a ver com o funionamento do elevador, afinal ele só abriria a porta se alguém acionasse um botão e, bom, pessoas mortas não são muito boas em acionar botões.
- Rili! - sussurrou Roberta tentando segurar a língua da parceira, como fazia todas as vezes que detectava sua falta de jeito com os meros mortais não-policiais.
- Certo, é só que... - tentou Cláudio
- Senhor Cláudio, agradecemos muito a sua contribuição mas, no momento, não podemos passar nenhuma informação antes do laudo que estamos esperando. O elevador será liberado para funcionamento hoje ainda, não se preocupe. Peço que retorne ao seu apartamento ou onde quer que o senhor estivesse a caminho e, claro, precisando do apoio e da sabedoria de um engenheiro vamos te procurar na hora! Combinados? - Roberta sempre salvava a situação.
- Tudo bem. Bom dia. - Cláudio voltou pro vão de escadas do prédio que, ao contrário do restante, não tinha nenhum marco arquitetônico memorável que valesse à pena ressaltar. Os modernistas se lembravam de tudo, menos das escadas.
- Nós já temos o laudo, estava só te esperando chegar. - Marília puxou as fitas que isolavam o elevador e abriu a porta, chamando Roberta pra dentro.
- A gente realmente precisa conversar aqui dentro do elevador?
- O cara morreu pela inalação daquele gás que conhecemos bem.
- O gás daquele caso do ano passado?
- O próprio.
- Será que está na moda entre os criminosos usar esse negócio agora?
- Rô, vamos lá, você é melhor do que isso. - Marília passava as mãos pelas paredes do elevador olhando cada detalhe enquanto conversava com Roberta.
- Achamos o cara num porta malas de um carro e levamos cerca de um mês e qualquer coisa pra descobrir os culpados.
- Que eram...
- De uma facção de tráfico. - Roberto bebeu um gole do café - Você está pensando...
- Não podemos descartar nada ainda. Apenas o mal súbito.
- Rili, esse é um prédio residencial de gente estranha, tudo bem. Mas daí a ser objeto de queima de arquivo de facção...
- Percebe que algo não cheira bem?
- Percebo que alguma coisa pode não se encamixar mesmo, mas...
- Não, é sério. - Marília pegou o copo de café das mãos de Roberta, abriu a porta do elevador, deixou-os no chão de granito marrom e fechou a porta novamente. - Respira fundo.
- O universo está determinado a me fazer vomitar meu café essa manhã...
- Percebe?! O gás utilizado não tem cheiro. O corpo foi retirado daqui há dois dias. E algo não cheira bem.
Marília começou a dar pequenas batidas nas paredes do elevador. Depois apertou o número 5. O elevador fechou a grade de segurança e subiu. As policiais ficaram em silêncio durtante toda a subida. Ao parar no quinto andar, a porta foi aberta por fora.
- Oh, que bom que o elevador voltou a fuincionar! Bom dia, meninas! Posso pegar uma carona com vocês até o térreo? - era Dona Zita, a síndica, a moradora mais velha, a fofoqueira.
- Bom dia, Dona Zita! Sinto muito, mas não, o elevador ainda não foi desbloqueado, estamos só checando algumas coisas. Infelizment evamos precisar pedi-la para continuar usando a escada mais um pouco.
- Ah, sim. Sem problemas. Mas estão desconfiando de alguma coisa? Posso ajudar dando alguma informação? Eu sou síndica do prédio e morado há muito anos!!! Posso dizer o que precisarem saber sobre nosso querido Délcio, que Deus tenha sua alma.
- Não será necessário, Dona Zita. Muito obrigada. Com licença. - Marília voltou a fechar a porta do elevador e apertou o botão para chegar novamente ao térreo.
Ao parar, Marília e Roberta se entreolharam ao perceberem ambas um baque surdo e um balanço estranho no elevador. Marília se abaixou e começou a dar pequenas batidas com a mão no chão do elevador, como fizera nas paredes há pouco tempo.
- Algo definitivamente não cheira bem. Não se abaixe, eu sei que você gosta do seu café dentro da sua barriga, não pelo chão. Rô, vai no carro e pega o pé de cabra.
- Marília, você está falando sério?
- Não me chama de Marília, pra você meu nome é Rili. Estou esperando o pé de cabra.
Roberta levou quatro minutos e vinte segundos para ir até a garagem observando os pilares modernistas bonitos e estranhos enquanto tentava entender o que se passava pela cabeça de Marília, coisa que ela sabia que nunca conseguiria na vida, seja no trabalho ou na vida pessoal. Pegou a ferramenta respirando fundo, voltou e entregou à parceira.
- Segura a porta.
Roberta ficou segurando a porta do elevador enquanto Marília tentava encaixar o pé de cabra em algum canto e puxava aquilo como dava. Demorou cerca de uns seis minutos e alguns segundos, muitos palavrões de Marília, uma jaqueta jogada pra fora, suor e força. Mas o piso do elevador finalmente se partiu e com a rachadura, veio também um vômito sonoro de Roberta, porque o cheiro que saía dali...
- Eu disse que algo não cheirava bem. Eu sempre falo: nunca é tudo.
Marília limpava o suor da testa enquanto olhava pra um segundo corpo que estava esse tempo todo deixo do chão do elevador.

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