Aqui por engano


Turistar em cemitério nunca foi uma ideia que me pareceu convidativa ou mesmo coerente. Pode ser uma opinião particular, porque não lido bem com a morte, mas penso que é mesmo um dissenso, e que todo mundo deveria pensar da mesma forma. Fato é que não pensam e, como ele queria ir, eu fui. 

O que há de tão interessante num túmulo pra virar atração turística? São pequenas construções de cimento ou pedra, com corpos sem vida abrigados ali dentro. Tudo bem, alguns até tem estátuas bonitas, mas é possível ver outras esculturas em praças ou museus, sem precisar atrapalhar o sossego dos que já se foram.

E as pessoas parecem realmente gostar disso. Havia turmas de escola, grupos de turistas falando outras línguas, desenhistas fazendo ilustrações por observação... E eu. Andando com bastante frio - no corpo e na espinha - desviando o olhar de certas coisas e tentando me ater a outras. 

Não sei quanto tempo tinha que estávamos dando voltas por aquele lugar quando reparei em pequenos grupos, de duas a quatro pessoas, conversando descontraída e desinteressadamente. Achei aquilo estranho. Aquelas pessoas estavam ali como se fosse um lugar que frequentavam todo dia, não tinham o fôlego dos turistas ou os olhos curiosos e inquietos de quem não quer perder nenhum detalhe do lugar. 

Ficamos perdidos entre os corredores com facilidade, o que acontecia com quase todo mundo que entrava ali. Era um conjunto de pequenos caminhos estreitos, feitos sem muita orientação - o que confirma a minha teoria de que não é um lugar pra se visitar. Enquanto ele se distraia tirando fotos e depois de tentar entender o mapa que nos entregaram na entrada, me aproximei de um desses grupos estranhos:

- Com licença, olá! Sabem dizer onde fica a saída?

- Há quanto tempo você está aqui? - uma troca de olhares curiosa entre o grupo

- Não sei ao certo, devo ter entrado há uma hora, mais ou menos.

Um riso - que não sei descrever - antes da resposta:

- A saída ainda pode demorar um pouco. Sugiro que vá andando por aquela direção ali. - e apontou o lado que eu acabava de vir.

- Aaaaan, tá bom. Obrigada.

Contestar que eu tinha acabado de vir de lá não adiantaria, era melhor buscar de outra forma. Segui pela direção apontada mais por cordialidade do que por acreditar na certeza da orientação. Depois de andar mais algumas muitas quadras, pelas quais já havíamos passado, encontramos, finalmente, uma placa de saída com uma seta. Seguimos naquela direção por mais alguns corredores, até que voltamos à praça central. 

- Não é por aqui... 

Fomos então para o outro lado do cemitério, o que ainda não havíamos visitado e, pensava eu, que nem visitaríamos, dada a minha urgência em sair logo dali. Ele encontrou uma pequena construção que achou interessantíssima - nesse ponto eu já tinha desistido de entender, então só olhei pro outro lado e fui me distrair com uma árvore gigante que balançava suas pequenas folhinhas no vento. Uma dessas folhas se desprendeu e veio na minha direção. Caiu no mapa, tampando a palavra "saída", provavelmente a rota que eu estava procurando. Passei o dedo pelo papel, pra tirar a folha dali e tentar me orientar, mas ela não saiu do lugar. Estava molhada e grudou no papel, pensei. Mas depois que vi que não era isso, guardei o mapa no bolso mais pra ignorar a situação estranha do que pra desistir de descobrir como sair. Entregaram um mapa pra cada pessoa quando entramos, então troquei pro papel dele. 

Quando fomos voltar nossa caminhada em busca à saída, notei que havia nascido um galho de qualquer coisa que enlaçou o meu pé. Eu queria muito sair daquele lugar. Não queria nem ter entrado e essa soma de situações estranhas começava a me tirar do meu senso de normalidade. Desvencilhei meu pé de forma um tanto agressiva, que me fez tropeçar. Me equilibrei rápido o suficiente, só pra parar em frente a um túmulo com espelhos e ver que apenas eu estava refletida ali. Ele não estava, os outros túmulos atrás de mim não estavam. Nada estava no vidro a não ser eu.

- Tá bom, hora de ir embora. Mesmo. Onde fica a saída?

Peguei na mão dele e fomos novamente no sentido da praça central. Se repetirmos o caminho da entrada, invariavelmente chegaríamos à saída. Mas não. A entrada era uma, a saída era outra. Ainda que houvesse um portão onde o dentro e o fora eram o mesmo lugar, não poderíamos sair por ali.

Segui com mais pressa na direção que a atendente indicou. Andava sem olhar pros lados, sem olhar pra nada, apenas pro final do corredor que eu queria chegar e só torcendo pra que ele estivesse atrás de mim me seguindo, porque se eu chegasse na saída e ele não estivesse, eu não voltaria pra buscá-lo. Seguia na melhor velocidade possível até que trombei com uma criança. Estava de uniforme, deveria ter se perdido da excursão da escola. 

- Ei, moça! Você está procurando a saída?

- Sim. Você também?

- Não, eu sei onde fica. Vem aqui. 

A criança pegou minha mão e eu peguei a mão dele, que, ainda bem, tinha largado a câmera fotográfica pra lá e me seguia. Quando chegamos num canto fora dos caminhos, a criança olhou pra ele, depois pra mim, como dizendo que a informação não poderia ser compartilhada. Ele voltou pra câmera fotográfica e eu voltei pra criança.

- Por favor, não conte pra ninguém que estou conversando com você. Nós não podemos fazer isso e eu já fiquei de castigo algumas vezes. Mas é muito incômodo ver vocês perambulando por aí...

- Você não pode me falar onde fica a saída, é isso?

- Mais ou menos... É que, na verdade, não tem muita saída. Não do jeito que vocês esperam quando entram aqui, pelo menos...

Eu não estava entendendo nada.

- Ah, moça. Não tem jeito mais fácil de explicar do que o direto, desculpa. Vocês não vão sair agora, podem ficar aqui por muito ou por pouco tempo, mas isso eu não vou saber dizer. Vocês já deixaram de ser turistas lá atrás, quando decidiram entrar aqui. Eu não sei o que aconteceu pra vocês saírem do mundo dos vivos, vocês vão descobrir isso junto com a saída. Mas por enquanto, vocês estão aqui, meio presos no... hmmm... purgatório.

Comentários