Convenção de Condomínio | Parte 1 - O elevador

20 de abril de 2024

O Edifício Campolina, ainda que pequeno com seus cinco andares, era um marco na capital do estado. Projetado por um arquiteto famoso e construído pela maior construtora da época, é um belo exemplar de arquitetura modernista construído em plena década de 1960. A fachada com linhas duras que ainda assim criam formas curiosas, as janelas em fita, o térreo com pilotis que deixa seus dois primeiros pilares aparentes e esconde os da garagem com um belíssimo painel de pedras recortadas. Prédios assim perduram porque a boa arquitetura tende a se sustentar forte e discreta como cenário de histórias incontáveis.

No hall principal, todo em granito marrom escuro, fica um único elevador, fabricado pela mesma empresa que fabricou tanques de guerra durante a segunda guerra mundial. É curiosa a conectividade das coisas que simplesmente escolhemos ignorar. O elevador é original do prédio, passa pelas manutenções prevista e muito raramente dá qualquer problema. Nos sessenta e um anos de história do Edifício Campolina, parou de funcionar apenas duas vezes. 

A primeira com um casal dentro. Eles acreditavam muito que o mundo acabaria nos anos 2000, que aconteceria o tão falado bug do milênio. Deram o azar de ficarem presos no elevador bem no final do fatídico ano de 1999, no dia 28 de dezembro, para ser mais preciso. No meio de setembro de 2000 nasceu Alina, a filha do casal que mora até hoje no apartamento 302. A segunda vez que o elevador travou foi em 2015, também com outra moradora do prédio até hoje, a mais antiga, Dona Zita, do 501, a cobertura. À época ela já era uma senhora com seus 79 anos de idade. Italiana, gritou tão alto pedindo socorro, que dava para ouvi-la do outro lado da rua. A empresa responsável pela manutenção a resgatou depois de uns quarenta minutos, azar que estava havendo um temporal na cidade e outros elevadores também estavam travados. 

Hoje o elevador funcionou normalmente, como também funcionaram normalmente todos os moradores do prédio com suas rotinas fixas e sem conversar muito um com o outro. Não é porque é um prédio pequeno que os vizinhos são uma também pequena comunidade unida e feliz. A discrição é um ponto tão considerável deste edifício que, se lermos as letras miúdas da convenção de condomínio, acredito que constará lá alguma coisa a esse respeito.

Dado o funcionamento habitual de tudo, todos se assustaram muito quando às 19h32 de uma quinta-feira comum ouviram um grito vindo de algum andar. Todos que estavam por ali saíram de seus apartamentos e foram direto com o dedo pra chamar o elevador, que simplesmente não se mexia, parado no quarto andar. A turma da fofoca ou da curiosidade ou os de bom coração preparadíssimos para ajudar, se encontraram na escada e foram abrindo porta por porta até chegarem no andar de Filomena e a verem parada, segurando o elevador aberto. Chegando mais perto viram: Délcio, o morador do 102, estava estatelado no chão.

- Meu Deus! - avançou Cláudio, o engenheiro mecânico do 202 - precisamos prestar os socorros! Alguém aqui sabe como faz aquele negócio do dedo no pescoço pra sentir o coração?

- Não mexam nele! Chamem o serviço de emergência, ninguém aqui é médico ou sabe o que fazer - disse uma Filomena ligeiramente abalada.

- Rorô, liga pra eles, Rorô! Você sabe o número, meu bem? Pobre Filozinha... Passar esse susto! Eu vou no meu apartamento buscar meu terço e já volto. - dona Zita, talvez pela idade, já não se abalava com muita coisa. Era a pessoa mais serena de todo aquele pequeno prédio que por vezes conseguia ser bastante caótico.

Rômulo, estudante de Tecnologia da Informação que morava no 502, muito obediente, fez as ligações necessárias. A porta do elevador ficou aberta por cerca de 20 minutos enquanto todos ficaram em pé esperando alguma coisa acontecer. Nesse tempo Délcio não mexeu, Dona Zita rezou um mistério e meio do terço, Rômulo olhava para todos os cantos do elevador, Cláudio parecia em choque, e Filomena parecia... Bom, Filomena. Levou 79 minutos do grito de Filomena para a polícia, acionada pelo serviço de emergência, contar pra todos, que já tinham sido conduzidos para o térreo, que sim, o vizinho havia, de fato, morrido.

- Mas o que pode ter acontecido?

- Nós ainda não sabemos, levaremos o corpo para avaliação médica. De toda forma, bloqueamos o elevador pelos próximos dois dias, é o protocolo. Alguém aqui tem dificuldades com escadas?

Todos balançaram as cabeças negativamente. Parecia que a discrição voltou a valer com tudo naquele momento. Todos voltaram silenciosamente para seus respectivos apartamentos e deixaram a polícia fazer seu trabalho.

O que ninguém sabia é que o trabalho da polícia estava só começando, e seria, se não longo, pelo menos instigante.



Comentários