Isabela saiu cedo pra ir na padaria. Enquanto tirava o carro da garagem, passou um furgão azul, uma moto com duas pessoas, outros carros atrás. Ela passou com a roda dianteira do carro numa poça d'água remanescente da chuva de ontem. Esperou o sinal abrir ao lado do furgão e atrás da moto. Depois de um trajeto de cinco minutos de quem não queria ir à pé na chuva, estacionou em frente à padaria. Esperava na fila pensando no que ia pedir. Um casal se abraçava no canto, uma senhora falava alto no celular, o furgão azul abria as portas e levava sacos aparentemente muito pesados para os fundos da padaria. Isabela faz seu pedido, recebe e volta pro carro. Um dos carregadores do furgão tromba com ela sem querer e pede desculpas, ele parece ansioso. Por sorte o café não derramou. Ela vai pra casa, liga a televisão que noticia a morte de alguém, coloca no mudo e vai pra varanda tomar seu café. Seu gato sobe na mureta e começa a arranhar a tela enquanto passam carros de polícia com a sirene ligada. Ela coloca fones de ouvido pra abafar o barulho. Deita no sofá e dorme até o meio da tarde, acordada pelo som do plantão de notícias na televisão depois do gato pisar no controle e tirar do mudo. Na tela uma jornalista com terninho preto sem graça e um furgão azul aos fundos. Ela desliga a televisão e vai pro banho. Pega uma pizza na geladeira, senta de novo no sofá e escolhe um filme pra assistir. Apaga as luzes e fica incomodada com o vermelho e azul que entra na sala. Se levanta pra fechar as cortinas enquanto uma fila de carros policiais estaciona a uma distância de cinco minutos de caminhada da sua casa. Fica assistindo o filme até dormir. Na manhã seguinte decide novamente ir de carro à padaria. Em algum momento essa sensação de não querer fazer nada vai incomodar Isabela e ela vai buscar ajuda, mas hoje não. Ao abrir a porta, ela pega o jornal e joga no banco do carro sem ver a foto de três homens e um furgão azul que acompanhava a notícia da primeira página de que o homem assassinado ontem foi encontrado em pedaços ensacados no freezer de uma padaria de um pequeno bairro da cidade. Isabela para novamente no sinal e, ao chegar na padaria de sempre, acha estranho a movimentação de pessoas em frente, lá é sempre muito vazio. Sem querer socializar, ela pensa em qual é a outra padaria mais próxima e se dirige até lá. Desce do carro e, antes de entrar, joga fora o jornal no lixo da rua. Hoje seria mais um dia tedioso e normal, igual ontem.

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