Era quatro horas da tarde quando descobriram que tudo ia acabar. O anúncio oficial só saiu depois de cerca de doze dias, por insistência das potências que sempre tratavam tudo na transparência. Algumas ainda preferiam não avisar nada e eu ainda acredito que tenham locais no mundo que não façam ideia do que está por vir. Não deram muitas explicações, apenas o risível "o fim está próximo" - só que de verdade. A sociedade passou por uma reestruturação inacreditável. Nem eu, enquanto leitora voraz de ficção científica, imaginei ver alguma coisa assim. Me peguei pensando se a chave pra obediência e disciplina não seria mesmo o medo. Alguém deveria citar Maquiavel em algum momento. Mas não dava tempo.
Eram duas horas da madrugada quando bateram na porta da minha casa. Uma mulher de terno à frente, acredito que pensaram que aquela identificação feminina seria reconfortante. Um número de oficiais que não consegui contar ou distinguir, estavam todos cobertos até o rosto com vestimentas que sugeriam um combate muito pesado. Em tom calmo e com poucas palavras, a oficial me pediu que os acompanhasse até a base militar mais próxima, tinha a ver com o fim dos tempos, o apocalipse, o ragnarok, mas não cabia a ela contar. Se o mundo vai acabar, porque você diria não pra um convite pra ir pro único lugar que teria a resposta real sem enrolação?
Eram cerca de sete horas da manhã quando fomos liberados na entrada. Pelo caminho a vida funcionando como nunca antes, numa engrenagem que não precisava de reparos. Ali dentro, por onde passávamos faziam aquela posição militar engraçadinha pra oficial que seguia na minha frente. Eu ia atrás, com minhas calças jeans, moletom do meu time de futebol e tênis. Despenteada e com o mau hálito da madrugada. Me direcionaram a uma sala com uma mesa grande. Na ponta estavam três pessoas. Claro, na ponta estavam três homens. Então começo a entrar num dos livros da minha estante.
Como eu sabia, o mundo acabaria. Como soubemos disso? Através de uma mensagem captada por bases espaciais de várias nações do planeta. Como se daria? Bom, ainda não temos certeza mas, havia uma conexão comigo.
- Como é?!
O código completo do meu DNA estava em uma dessas ditas transmissões estranhas. Eu sempre acreditei que havia vida em outro lugar do espaço, nós não podemos ser tão excelentes assim pra estarmos sozinhos. Mas certamente somos estúpidos o suficiente pra ninguém querer entrar em contato conosco. Minha teoria. A não ser que seja pra contar que nós estamos nos aproximando do fim. Aí poderia ser divertido. Até aí, tudo cem, dava pra aceitar. Mas quem quer que fosse teria conhecimento do meu DNA completo e associaria isso ao fim dos tempos?! Hm, acho que não.
Fato é que os cientistas ainda estavam trabalhando para entender essa conexão descabida, afinal eu sou uma humana normal. Até meio abaixo da média se formos considerar questões de inteligência, sucesso, blá blá blá. Eu escolhi só querer viver minha vida e ler meus livros. Pronto. Mas eles queriam que eu me mudasse pra base militar. Eu deveria viver ali e me disponibilizar para os testes necessários, sem violação de nenhum direito humano, claro. Não me submeteriam a nada com o qual eu não concordasse.
- E eu posso receber uma explicação prévia e detalhada do procedimento que será realizado e o motivo?
Eles se olharam por alguns segundos e pensaram que não deveria ter problema, afinal eu não conseguiria unir duas frases de explicações científicas pra permitir que qualquer coisa que eles dissessem fizesse algum sentido. Esses cientistas deveriam estar decepcionados que o fim da humanidade caiu sobre uma humana mediana e não um deles...
- Alguém vai querer me matar em algum momento? Afinal, se o fim sou eu...
De forma alguma! O raciocínio todo estava indo para o caminho oposto, na verdade, por incrível que pareça. Eles estavam dispostos a me manter no maior conforto possível, vivendo apenas para cuidar da minha saúde e longevidade enquanto faziam testes com os meus mais variados materiais. Era quase como se o mundo fosse acabar se eu acabasse também. "Era quase como se o mundo fosse acabar se eu acabasse também"... Hm. Aceitei.
Era este mesmo dia de sete anos atrás quando eu disse sim e me mudei pra cá. Eles não avançaram em muito no entendimento das coisas, mas estão relativamente em paz por saber que eu estou a salvo e, portanto, o planeta também deve estar. Eu avancei consideravelmente desde que estou aqui, eles só não sabem. A cada semana, uma vez por semana, peço pra me trazerem um ovo cru. Já faço isso há quatro anos. Quando me entregam, vou para o banheiro, o único lugar do meu quarto que não tem câmeras. Sim, tive que abrir mão ao menos da privacidade pra ter conforto e acesso a confidencialidades. Achei um preço justo.
No banheiro, eu me sento no chão e fecho o ralo do box. Jogo o ovo sobre ele com força, ele se quebra. Cato cada pedaço de casca com a ponta dos dedos e deixo de lado. Olho aquele ovo esparramado, a gema às vezes se parte, às vezes não. A clara fica ali molenga, frágil, elástica... O ovo cru estourado fede. Começo a abrir o ralo aos poucos. A clara faz seu caminho gosmento tubulação abaixo, um caminho que eu não vou ver, estou muito acima. Furo a gema com o dedo indicador, o levo na boca e chupo. A gema se espalha e vai descendo também enquanto eu continuo abrindo o ralo aos poucos. Resta muito pouco do ovo, mas o cheiro ainda percorre todo o banheiro. Termino de abrir o ralo e olho pacientemente os últimos fios de clara e gema, coisa só, descerem. Abro o chuveiro e deixo que ele limpe o ralo.
Era uma semana atrás quando eu quase decidi. Mas voltei atrás. Continuo sempre pedindo meus ovos e refletindo novamente a cada semana, repassando cuidadosamente na cabeça todos os procedimentos aos quais fui submetida nesse último período. Semana passada eu pensei que realmente já estávamos no ponto sem retorno. A pesquisa estava estagnada, eles não descobririam nunca. Até que alguém pensou em fazer um teste com um isótopo diferente e meu preciosíssimo sangue. Foi isso que me fez mudar de ideia. Chega a ser engraçado ver o quanto eles circulam em volta das suas próprias cascas e enxergam tão pouco pra dentro do ralo que estão indo...
Era uma hora atrás quando me perguntei "Quando será que eles vão saber? E quando souberem, o que farão?" Darei tempo de eles fazerem alguma coisa? Afinal, eles são humanos, alguns deles humanos cientistas, tenho que apontar essa mínima vantagem de fato. Mas eles não sabem que eu sou o ovo. Eles não fazem ideia que eu sou o receptáculo do fim. Quanto levará esta gestação?

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