A sereia tem um espelho


Eu moro no rio. Não sei de onde venho ou se tenho pais. Estou debaixo d'água desde minha primeira memória. Aqui eu vejo peixe, eu vejo barco, eu vejo bicho. Eu vejo gente que não me vê e eu também não me vejo. É como se meu corpo fosse água, quando olho pra baixo, pra onde eu deveria estar, não vejo nada, mas ondulações. Cor sorte, quando passa um barco com casco de metal consigo ver meu reflexo distorcido, é assim que eu sei que sou, que existo. Sou desconhecido de mim mesmo e sou só. Não sei falar, não sei tocar, não sei ser. Sei existir debaixo d'água no meu corpo fluido. Moro num rio profundo, onde passa muito barco, onde chega muita gente. Estou entre eles invisível, passo  por suas pernas e pés sem que eles me sintam. Quando mergulham, se eu não me afasto, trombam em mim. Nunca subi pra superfície. Só não quero. Foi enquanto eu olhava pro sol, lá do fundo do meu rio, que a criança desceu. Deve ter pulado do barco que o casco eu via ao lado. Veio a criança com uma máscara que cobria seu rosto. Ao contrário dos outros, ela não voltou. Ela olhou diretamente pra mim. Eu, que não existia, me assustei, mas não fugi. Prontamente me aproximei da criança. Ela tirou a máscara do rosto e ficou olhando fixamente pra mim. Sorriu e foi embora. Eu nunca mais esqueci aquele menino que me viu, eu nunca mais fui visto por menino algum.

Mexendo nas coisas antigas na casa dos pais, o homem achou um caderno das aulas de infância. Ao ler, sentiu o arrepio da lembrança que trazia consigo desde muito pequeno, mas não sabia de onde vinha. No papel, uma tarefa de quando era menino, estava escrito:

"Passei minhas férias no Rio Guamá. Lá tem peixes bonitos e comida gostosa. 
Fui pro barco com meu pai e minha mãe. 
Quando pulei na água tinha um menino igual eu. Eu achei legal!
Quero voltar lá nas próximas férias pra encontrar o menino-eu de novo."

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