Eu estava numa interminável fila de caixa de restaurante, desses dias que todas as pessoas decidem almoçar no mesmo lugar e no mesmo horário e o caos está instaurado. Na minha frente havia um casal. Eles se abraçavam carinhosamente, enquanto minha gravata me incomodava. Com a demora da fila, eles passaram a criar pequenas conversas entre eles e sorriam. Eu verificava no meu celular se o próximo problema que eu deveria resolver já tinha apitado. Eles se tocavam, se olhavam e se beijavam. Eu estava sozinho na fila.
Pra quem é ausente de afeto, todo tipo de amor incomoda. Passei o dia de trabalho justificando pra mim mesmo que eram jovens, deveriam ser um casal de namorados recentes. Mas não, eu tinha visto o anel igual nas respectivas mãos esquerdas. Deveriam estar em lua de mel, em algum almoço especial num restaurante qualquer de uma cidade não turística numa terça-feira. Passei o dia imerso numa dor de cotovelo daquelas, e disparando pontadas de raiva por toda parte.
Quando entrei no carro no final do expediente, não queria ir pra casa, retornar pra falta que eu havia sentido o dia inteiro. Inventei um congestionamento pra mim mesmo e fui por um outro caminho, mais longo, mais chato, mais demorado, que me dava mais tempo pra respirar. Me distraí com qualquer coisa e, quando me voltei novamente pra rua, tinha alguém na direção do meu carro. O tempo foi muito curto, não deu pra desviar, eu tinha acabado de atropelar uma pessoa. Não tinha ninguém naquela rua a não ser nós dois. O corpo no chão, o meu preso dentro do carro. Precisei de alguns minutos de coração disparado, mas desci.
A primeira coisa que vi foi a mão esquerda com um anel no dedo que me atormentou o dia inteiro. Eu tinha matado o amor de alguém, depois de matar o meu próprio e depois de ser morto faz tempo. O que eu faria? Não tinha a menor coragem de entregar um amor morto pro companheiro da mulher que estava estendida ali na minha frente e que a amava tanto há poucas horas. Ela não era apenas um corpo, eu era. Ela era o amor, eu não. Nunca desejei tanto trocar de lugar com alguém.
Peguei meu celular no bolso com as mãos trêmulas e tentei pensar em algum serviço de socorro, mas não tinha área. Me levantei e andei por muitos metros naquela rua, mas não tinha nada, não tinha ninguém. Nem ela deveria estar ali naquele lugar errado, naquela hora incomum. Pra todos os lados eram muros e galpões silenciosos. Nenhuma casa que eu pudesse tocar a campainha pra me ajudar. Voltei decidido a me sentar do lado daquele corpo até que alguém aparecesse, ainda que ninguém aparecesse e eu ficasse ali, naquela espécie de universo paralelo. Chorei. Chorei muito. O cotidiano da morte do amor é duro, mas a morte palpável do amor de alguém, machuca demais.
Estendi a mão sem querer, era como observar meu braço se mover sozinho. Tirei os cabelos do rosto do amor morto e vi ali outro que não o da mulher que recebia tanto afeto num almoço qualquer. Era o rosto de outra mulher que eu conhecia muito bem. A que estaria em casa quando eu chegasse, como estava todos os dias nos últimos anos. Era a mulher que um dia recebeu meu afeto inteiro, era a mulher que um dia eu escolhi dizer que eu amava e depois repeti isso cotidianamente até não fazer mais sentido. E não fazia mesmo. Era o rosto da mulher que carregava com ela todos os problemas que eu carregava comigo. Era o rosto da mulher que me ensinou que os amores morriam assim, atropelados.
Eu fugi. Entrei no carro, deixei o corpo, fui embora. Fui pra casa que era o lugar que eu conhecia, pra ver vivo aquele rosto morto que eu também conhecia, carregando no porta malas o peso do assassinato e deixando na rua o corpo sem vida. Foi uma questão de minutos até eu chegar em casa e ver aquele rosto conhecido acompanhado de um corpo vivo e em movimento. Os olhos tristes, mas vivos. Não sei o que aconteceu naquela noite ou na manhã de hoje, foi como ter entrado num transe, foi como ter ultrapassado as barreiras do universo paralelo que surgiu no canário do corpo morto e o carro na rua vazia. Não sei como sei, mas hoje é outro dia.
Ontem o amor morreu. Hoje é quarta-feira e eu estou aqui, numa interminável fila de caixa de restaurante, desses dias que todas as pessoas decidem almoçar no mesmo lugar e no mesmo horário e o caos está instaurado. Na minha frente há um casal. Eles se abraçam carinhosamente, enquanto minha garganta aperta. Ela olha pra mim, não é um rosto que eu conheço bem, só um rosto que vi ontem numa fila de restaurante. Abaixo os olhos pra minha mão esquerda, meu anel está lá. Minha mulher está viva, no mundo e em mim. Saio do restaurante sem pagar, corro pra rua, preciso respirar, preciso resolver, preciso dela. Pego o celular e ligo pra um número conhecido, que eu sempre soube, apesar do desuso. Ela atendeu e tudo que eu pude dizer enquanto ficava parado no meio da rua e um carro vinha na minha direção foi: te amo.

Adorei a Leitura. Meu coração disparou.
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