Eu tenho medo de muito. Diria que tenho medo de quase tudo. E minhas moléculas não absorvem bem meu medo, ele fica entranhado na minha corrente sanguínea, indo de um lado pro outro, até se diluir o suficiente pra eu esquecer o medo de alguma coisa porque já chegou o medo de outra. Eu sou um completo ciclo medroso. Há dias que o medo cansa, suga todas as energias que há pra sugar. Mas o medo nunca, nunca, nunca vai embora. O medo sou eu. E certo dia o medo me acordou de madrugada. Ouvi um sussurro indefinido e meus olhos de pupilas dilatadas se abriram de imediato. O teto não estava mais lá, havia o céu. O céu noturno, estrelado, no formato de céu que me desperta o temor. Ouvi um som vazio, quase um silêncio. Me senti balançar suavemente... Levantei meu corpo no colchão da minha cama, quando percebi que ele flutuava. Ele seguia sozinho no meio de um mundo de água. Água escura, sem luz, igual o céu, refletindo apenas as estrelas. Não dava pra ver, mas eu sabia que era uma água muito, muito, muito profunda, e saber foi o suficiente pra me gelar o peito e faltar o ar. Eu só via água e céu, água e céu, água, céu, escuro e estrelas. Eu estava sozinha, exceto pelo meu medo. E eu sentia ele pegando minha mão, entrelaçando dedo por dedo. Talvez ele remasse um remo invisível que eu não percebia e levasse meu colchão comigo pela água. O medo me envolve, eu sinto frio, mas um frio conhecido, do medo que me abraça desde quando eu me entendo por gente. O conforto desconfortável dos que temem. Não sei se quero acordar, se é que estou dormindo. Mas acordar implicaria em encarar medos novos, medos à luz do dia, medos visíveis e palpáveis. Aqui o medo está comigo, como sempre está me acompanhando. Mas aqui ele está, apenas. Está. Solto o ar preso no meu peito, confiando no medo. Me perco, me solto, deixo ele me levar.

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