Solitude aguda


Eu deveria escrever pra dizer que não vou, pensei eu enquanto separava papel e tinta com minhas mãos frias e suadas. Mas como eu justificaria? Estavam há meses planejando esta comemoração que, por um deslize de alegria alheia, vim a saber sem poder. Tamanha falta de sabedoria, fazer uma festa de aniversário surpresa para alguém que mal sai de casa a não ser para cumprir o obrigatório. A mim não gosta sair e muito pouco receber. Os amigos se dividem nas visitas, sendo três já uma aglomeração sofrível para mim enquanto anfitrião. Chamem-me egocêntrico, narcisista e arrogante. No fundo sei que não o sou, prefiro estar na minha companhia não por gostar dela, mas por ela ser a única opção de companhia que não me cabe negar. As outras eu posso. Como poderei ser eu o centro de toda a atenção de uma reunião de tantas pessoas e em caráter tão comemorativo?! Não posso. Só de pensar, já me chega a náusea e o pensamento de me enterrar na cama sob os cobertores e chamar um médico que me trate - apenas o médico, se possível. Sem nenhum estudante ou enfermeira a tiracolo. O papel se abria à minha frente, minha mão já trêmula, respingava a tinta. Mas a palavra não saía. Pobre do solitário que não consegue suportar o peso da tarefa do desagrado. Não poderia estragar o planejamento, não poderia deixá-los entristecidos. Era melhor que me entristecesse eu, ou sofresse qualquer ataque ansioso no caminho. Antes eu. Larguei papel e tinta, desistindo do desagrado, definindo pelo desatino: compareceria à minha festa surpresa. Troquei minhas roupas, o espelho me devolveu uma figura nauseada. Respirei fundo, desci as escadas, coloquei o chapéu. Parei à porta da casa com a mão na fechadura, respirei fundo. Abri. Vários gritos de surpresa em conjunto, um clarão que num segundo escureceu. Glória aos céus! Foi levado o aniversariante desmaiado ao seu quarto e a festa se deu na sala, sem a sua presença. Feliz eu sozinho, felizes eles em bando. Feliz aniversário para mim!

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