Autoimune


Uma pessoa encapuzada vinha na minha direção e eu corria. Fugi até não ter mais saída. Quando ela se aproximou, eu tentei me defender, a pessoa desconhecida parecia ter o exato mesmo tamanho que eu. Não consegui. Foi com facilidade surpreendente que ela me deu um golpe na cabeça e... eu acordei. Estava parada no meio de uma estrada desconhecida, de pé, nenhum carro passava. Ouvi um barulho de motor ao longe e pouco tempo depois, um carro em alta velocidade vindo na minha direção. Não dava pra ver através do vidro. Saí da estrada e tentei fazer sinal. O carro não seguiu, não me ignorou, mas também não parou. Veio pra cima, sem reduzir e sem nenhuma dúvida. Consegui correr muito pouco antes de sentir o impacto e apagar. Abri os olhos, mas estava tudo escuro, alguma coisa me tampava a cabeça. Eu estava sentada e senti que minhas mãos e pés estavam amarrados. Uma lufada de ar no rosto e uma luz muito forte. Alguém totalmente coberto na minha frente, apenas com os olhos aparentes. Olhos que, quando reconheci, me desesperei. Apanhei furiosamente, até nada existir mais. No instante que abri os olhos, me faltou ar imediatamente, eu estava submersa, era uma piscina e alguma coisa me prendia ao fundo. Olhando pra cima, longe e turva, vi a silhueta. Tentei gritar, mas de nada adiantou. Não durei muito ali também. Acordei sem fôlego e levei um tempo pra me estabilizar e entender onde estava. Deitada numa linha férrea, com uma das mãos presa ao trilho. Quando ouvi o apito, quase não me preocupei, estava cansada demais pra lutar de novo. Olhei pro céu e respirei fundo, apenas esperando. Quando coloquei a mão livre no bolso, encontrei uma chave. A chave combinava com o cadeado que acorrentava minha outra mão ao trilho. O que eu fiz? Não tive tempo suficiente para pensar. O trem passou. Assustada, me encontrei de pé em frente a uma pia de banheiro sujo, com a cabeça abaixada. Ao levantar, no espelho à minha frente, vi que atrás de mim estava alguém. Passei a mão pra tirar a sujeira do espelho e senti o frio tomar conta de todo o meu corpo quando o reflexo passou a mostrar um corpo e um rosto que eu conhecia muito bem. Era eu. Com tudo que eu sabia que sentia refletido ali naquele olhar. Havia raiva. A pessoa no reflexo levantou um dos braços e me apontou uma arma. Sim, eu sorri. O barulho do disparo foi a última coisa que ouvi quando acordei olhando fixamente pro teto do meu quarto. Estava na minha cama, estava tudo no lugar. Precisei de um tempo pra pensar... há quanto tempo venho me matando?

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