Estava sozinha. Cheguei nesse lugar novo, buscando ser nova e com muitas coisas velhas em caixas. Não foi no primeiro dia, mas em pouco tempo ouvi o som do piano na casa da esquina. O ângulo da parede era preciso pra eu não identificar quem tocava. No primeiro dia, sentei no chão, ao lado do vidro da varanda e fiquei ali, em silêncio, vendo a luz acesa e ouvindo o som do piano. Fiquei ali esquecida de mim, até o som parar e a luz se apagar. Naqueles primeiros dias eu saía na rua olhando os rostos e pensando "seria você?" Naqueles primeiros dias eu procurava por distração em todos os lugares. Não queria olhar para a minha inexistência. Em alguns momentos, consegui. Em outros não muito, como no dia que, passando pelo meu novo corredor, a luz não se acendeu. Era o sensor me lembrando que eu não existia. Mas todos os dias o piano estava lá... Para o meu alívio, agora eu morava perto de alguém disciplinado o suficiente pra não falhar na rotina. Pra não falhar comigo. Como se houvesse alguma obrigação... Acostumada com o som, comecei a chamar as melodias que vinham de música da reconstrução, afinal era isso que eu deveria estar fazendo. Reconstruir meu espaço, reconstruir a mim mesma. Eu confiava que a música me levaria pra esse caminho, eventualmente. Eram dias silenciosos, se eu não conversasse sozinha. E conversar comigo mesma não me parecia muito convidativo. No fundo, eu sabia que tinha perdido o jeito. Ficamos tão preocupados em amenizar a dor do outro que quando percebemos, estamos afogados da nossa própria dor. Eu estava perdida. Segui saindo de casa nos mesmos horários todos os dias, ainda que não voltasse sempre pontualmente. Às vezes preferia me demorar na rua, no trabalho, num café qualquer... Nesse dia, pelo menos a luz do corredor me reconheceu. Cheguei atrasada, a melodia já estava avançada. Corri até a varanda, sem fôlego. Chorei. A noite também decidiu chorar comigo, choveu forte. O barulho da chuva me atrapalhava a ouvir o piano, que virou uma música de fundo tão distante. Aquilo me desesperou. Dormi embalada pelo choro, sem perceber, pra acordar da mesma forma no outro dia. O tempo passou junto da música, com a música. Aos poucos comecei a desfazer as caixas, aos poucos comecei a me reconstruir. O piano continuou e continua... A solidão também, a tristeza e medo. Todos vão embora, eventualmente. Menos o medo. Medo de nunca aprender a tocar piano, ainda que eu nem tenha vontade de aprender. Talvez eu compre um pra mim e aprenda a tocar. Talvez não. Talvez alguma parte de mágica ainda seja melhor que venha do outro. Nem tudo depende só de mim, eu já deveria ter aprendido. Hoje instalei uma cortina, amanhã penduro os quadros. O lugar novo vai estar pronto em algum momento. Eu também devo estar. Eventualmente.
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