Voar, mas não muito


Quis o acaso, num golpe avoado, que eu saísse do ovo no forro do teto de um aeroporto. Meus pais moravam lá, assim como vários outros passarinhos. Sempre havia filhotes, e os viajantes adoravam nos ver cortando o aeroporto antes de estarem eles mesmos cortando o céu, na relutância de querer voar sem ser passarinho. Era divertido morar ali com a minha família e a vizinhança. Apostar corrida com os aviões, pousar no seu nariz, pegar comidinhas nas mesas... Eu assistia a todos fazendo essas coisas, mas não fazia. Nasci passarinho, mas com uma tremenda falta de vontade de voar. Meus pais tentaram de tudo, meus irmãos me ajudaram até perderem a paciência, os vizinhos não entendiam muito bem. Eu comecei a arriscar pequenos voos, curtos, objetivos. Pegar uma comida e voltar. Pousar num carrinho e voltar. Passear numa mala e voltar. Até que um dia, pousei num espacinho que encontrei pouco abaixo do nariz de um avião. Estava confortável ali... Mesmo quando aquilo fez um estrondo avisando que subiria. Eu não saí. Me acomodei bem, torci pra dar tudo certo e decolei no que seria o primeiro voo longo da minha vida. Ver o céu lá de cima me fez entender porque os outros iguais a mim se esforçavam tanto para voar. Mas não me fez arrepender por não ter me esforçado antes... Sempre fui mais esperto do que esforçado. Começava ali a minha vida de viagens. Conheci muitos lugares, bati muito pouco minhas asas. Às vezes a vida é assim.

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