Deu errado


Estava distante quando uma pedra acertou a vidraça da janela. Me assustei o quanto uma pessoa ausente se assusta. Pelo vidro quebrado, espetada por pontas afiadas, eu vi, lá na frente, aquela ponte. Velha, metálica, pesada... A ponte da qual intento pular. Ela olha pra mim como quem atravessa, feito a pedra minutos antes na vidraça. Apesar de lá fora existir o barulho do caos, aqui dentro minha cabeça já foi remediada. Meus olhos piscam devagar, mas me falta ainda um pouco de fôlego. Como vai ser? Será que a água do rio vai estar fria e mansa? Haverá correnteza? O que me porá fim; a água em temperatura e violência ou as rochas em precisão?  É difícil saber da queda antes do salto. Me preparava para levantar quando ouvi o barulho seguido da fumaça. Havia muita poeira entre mim e a ponte. Perdida em nossa conexão, me aproximei da janela. Quando a ponta do caco da vidraça já rabiscava meu olho, percebi que a ponte não estava mais lá. Pronto, precisava encontrar outro jeito de acabar com tudo. De voltar. Cobri minha boca e meu nariz com o pano sujo que me restava e fui porta afora. Era quase impossível andar na rua e eu não sabia mais para onde estava indo. Instintivamente, continuei seguindo o caminho da ponte. Os rostos pelos quais eu passava pelo caminho já se tornavam borrões, eu já não via mais com clareza. Isso era sinal que meu tempo estava acabando... Acelerei o passo, mas durou pouco. Uma comitiva estranha praticamente passou por cima de mim. De certa forma é divertido pensar na urgência que nós, pessoas, arrumamos de correr quando sabemos que o fim está próximo. Nós somos mesmo uma espécie muito burra... Quanto mais tempo passo aqui, quanto mais tempo passo em outros lugares, a justificativa da nossa pequena grande aventura só faz reforçar. Dessa vez segui o plano, não tenho ninguém de quem me despedir. Dizem que assim é mais fácil, e é mesmo, tenho que concordar. Estou a uma rua do que resta da ponte. Me deixe pensar... Há armas por toda parte, mas essa nunca foi uma opção que me agradou em cenário algum. Há carros passando por todos os lados, mas pode não ser definitivo. É, da ponte ou do que restou da ponte, é melhor pular mesmo. Atravesso a rua e chego na beira do rio onde nadam os restos de de metal. Analiso os pedaços ao lados dos meus pés com cuidado e pego uma peça que acredito que vá fazer o serviço. Ajeito ela firma na minha mão e não posso deixar de pensar que essas pessoas realmente precisam melhorar o programa. Morrer nunca é bom... Tem que ter um jeito melhor de voltar no tempo pra avisar que essa opção de futuro também não deu nada certo. Nos filmes era mais legal. Eram máquinas malucas, às vezes carros que foram um fracasso de venda, ou mesmo um cubo de quatro dimensões... Mas aqui na realidade é isso, se morre pra voltar e tentar consertar o tempo - porque já estamos um tanto desesperançosos com consertar a espécie. Bom, é isso. As anotações estão todas comigo, é hora de ir. A última coisa que vejo nesse futuro é uma barra de metal vindo em direção à minha testa.

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