Tudo é rio e rua


Comecei a escrever um texto triste - um tanto suicida - sobre uma ponte da qual eu intencionava pular. À medida que as palavras tomavam forma, foi me dando uma falta de ar tremenda, que me fez desistir da escrita. Da escrita não, daquele texto, daquele retrato triste, ansioso e desesperado. Respirar é bom e sentir o vento da beirada da ponte talvez me tenha feito entender que - ao contrário daquela personagem - eu quero viver. 

Meus dentes doem, meus ombros estão duros feito pedras, meu pescoço mal articula. Mas tudo bem, um texto reclamão ainda é melhor do que um texto suicida. Se eu levantar e for até a janela - que no outro texto estava quebrada e dava vista direto pra ponte - eu vejo um aglomerado de prédios, de gente passando por suas vidas cotidianas. Conseguiria criar uma história pra cada apartamento... O do rapaz que tem um casal de gatos que está sempre andando na janela, o da mulher que vive deixando um maiô pra secar pendurado pra rua, os três que dividem uma república e ficam sempre fechados nos respectivos quartos.

Mas não. Me intriga saber quem dentro de mim queria pular daquela ponte e porquê. A personagem - aflita e dramática - até se questionou se morreria pela água ou pelas pedras do rio abaixo da ponte. Aqui perto de mim não tem ponte, mas tem viaduto. Não tem água e pedra, não tem rio, mas passa carro, caminhão e ônibus, tem rua. Entre pular de ponte ou de viaduto, a segunda opção me soa menos poética e mais efetiva. Mais realista.

Engraçado, que ao contrário do rio e da rua - que matam e fluem - tem dias que a gente empaca ou despenca. Hoje eu caí. Volto depois, se tiver sobrevivido, como uma personagem atropelada ou afogada. Mas volto pra cá depois. Preciso antes voltar pra dentro de mim, desfazer congestionamentos, acalmar correntezas. Pra viaduto e ponte serem só vista bonita, travessia, sair de um lugar e ir pro outro. Porque, no fim - ou começo - tudo é rio, tudo é rua, tudo chega a algum lugar. Eu também vou chegar.

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