Abri os olhos no completo escuro. Levei alguns segundos pra perceber que meus pés e mãos estavam presos e mais outros segundos pra ver que meu corpo doía. Quem me colocou ali não sabia direito o que estava fazendo. Onde eu estava era a próxima questão que eu precisava responder. Não seria difícil, eu era treinada pra várias coisas, inclusive isso. Tentei esticar minhas pernas, mas não consegui. Me virei, consegui me apoiar nos braços e levantar o corpo, devagar, sem fazer barulho. Esbarrei num teto. Ok, lugar fechado e movimentando. O porta malas de um carro seria bem provável. Sinto minha arma ainda presa à canela e minha faca na cintura. Quem fez isso é um amador. Não faz sentido, preciso pensar. De todas as investigações em curso, qual dos objetos demandaria o meu sequestro? E com pessoas que certamente não sabem o que fazem, inclusive não sabem dar nós, porque minhas mãos já estão soltas. Desamarro os meus pés e tento ouvir alguma voz, mas só há silêncio no carro. Pelo barulho das pessoas se mexendo, entendo que há um motorista e um passageiro, não há ninguém no banco de trás. Duas pessoas. Eu consigo derrubar duas pessoas, já fiz pior. Ouço um som de celular - do meu celular - tocando. Apalpo meus bolsos, lembraram de tirar o celular, mas deixaram o localizador de emergência.
- Não era pra ligar pro celular dela! Já estamos chegando!
Luíza? Essa voz é da Luíza, minha irmã. Luíza não me sequestraria jamais, ela nem consegue fazer esse tipo de coisa e não teria motivo. Será que está sendo coagida por alguém? Luíza não dirige, quem está no volante? Dirige mal, porque acabou de passar num buraco que me fez bater no porta malas com bastante barulho.
- Ei, cuidado! Minha irmã tá lá atrás!
Luíza está sussurrando. Ou ela acha que eu conseguiria ouvi-la - e não quer isso - ou ela acha que ainda estou desmaiada e não pode me acordar. Quem foi que teve a brilhante ideia de me desmaiar com essa substância antiquada, inclusive? Amadores. Preciso pensar no que fazer sem colocar minha irmã em risco. Eu posso ficar quieta até o carro parar e atacar quando abrirem o porta malas, depois de tentar perceber o que acontece. Ou eu posso sair do porta malas agora e entender quem está dirigindo e, muito provavelmente, parar essa pessoa e o carro. Vou sair logo daqui.
Vou tateando as bordas do porta malas no escuro até encontrar a textura metálica que eu preciso, o chip. Pego minha faca e começo o trabalho, o mais silenciosamente possível. Um clique quase inaudível e eu estou livre, só preciso empurrar o banco. Chego o encosto pra frente com cuidado, mas há tantos balões no banco de trás, que não consigo ver Luíza nem quem dirige. Ótimo, estou sendo sequestrada pela minha irmã que vai fazer uma festa com um monte de balões pra comemorar o meu fim.
Empurro o banco de uma vez o que acaba por gerar várias pequenas explosões - ninguém mandou encher o carro de balões de festa - que assusta Luíza que grita e o motorista que sobe com o carro no passeio e quase bate num muro. Com a arma em mãos, desço pela porta de trás:
- Luíza, sai do carro!!! Você, mãos onde eu possa ver!
- Camila!!! - e mais vários gritos histéricos atrás de mim. Quando me viro, um monte de mulheres me encarando com olhos arregalados. Eu conheço essas mulheres!
- O que tá acontecendo aqui?!
Quando me viro, Luíza está tirando do carro um homem enorme, seminu, tremendo de medo.
- Poxa, Camila! Precisava assustar o moço desse jeito? É só uma despedida de solteira! O rapaz aqui fez a gentileza de, além de dançar pra gente a noite toda, de trazer pra cá.
- Luíza... Ótima forma de levar uma agente pra uma festa surpresa, apagada e amarrada no porta malas de um carro. Essa ideia brilhante só poderia ser sua mesmo.
- Você nem imagina quais ideias brilhantes eu ainda posso ter!
Isso sim era uma ameaça.
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