Me pediram um relato breve, logo eu que sou prolixo. Engoli metade das palavras que consegui, depois de analisar muito bem qual poderia ser dispensada. Sobrou a frase: "A carta está sobre a mesa, mas não abra, o veneno ainda está lá". Estranho que, ao observar atentamente, a carta estava endereçada a mim. Confuso, baixei os olhos e vi que as pontas de alguns dos meus dedos estavam alaranjadas. Levei-as ao rosto para sentir o cheiro mas uma outra mão a empurrou de volta pra baixo e certificou que a agulha que me injetava um líquido transparente ainda estava conectada no meu braço. Seguindo aquele tubinho foi que me dei conta que estava deitado numa espécie de maca, com minha camisa cortada no meio. meus pés estavam enfaixados até a metade das panturrilhas e dali até o joelho um vermelho como se minha pele tivesse sido queimada. Naquele momento eu só queria um espelho pra me certificar que tudo no meu rosto estava no lugar certo. Era inquietante ver pessoas totalmente de preto e pessoas totalmente de branco dentro da sala, olhando pra uma mesa, olhando pra uma carta em cima da mesa, olhando pro meu nome na carta em cima da mesa e claramente evitando olhar pra mim. Lembrei que me pediram para não ser prolixo e me concentrei em escolher uma só pergunta que me ajudasse a transformar aquela cena em algo que faz sentido. Depois de repassar palavras e mais palavras pela cabeça e antes do apagão, consegui escolher apenas:
- O que aconteceu?

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