Hoje eu não quero. Acordei não querendo e já percebi que ia ser assim o dia todo. Não levantei da cama porque quis sair dela, mas sim porque não quis ficar deitado. Quando me ofereceram café, não quis. Quando me ofereceram um jornal pra ler, também disse que não. Tinha que entrevistar algumas pessoas pra vaga em aberto aqui no hotel, mas não quis. Melhor não querer entrevistar mesmo, porque, do contrário, o que eu não ia querer era nenhum dos candidatos, e aí poderia desperdiçar uma pessoa com bom potencial. Não quis ir na sauna como vou todos os dias. Por não querer ficar dentro do hotel, saí. Me pediram esmola, não quis dar. Me ofereceram bonés, camisas, óculos de sol, cadeiras em postos na praia, não quis. Me oferecem comidas e mais comidas, não quis. Não queria mais ficar de pé no meio da areia e, por isso, adentrei no mar. Não quis mais ficar de roupa, tirei todas elas. Depois de ir bem pra frente, porque não queria ficar no mesmo lugar, não quis mais nadar. Não quis mexer braços e pernas e também não quis boiar. Acompanhei, de olhos abertos, enquanto descia mar abaixo. Não lembro direito, mas pelo andar do dia, provavelmente em algum momento não quis respirar. E depois talvez não tenha quisto lembrar, porque não sei o que aconteceu nesse intervalo até eu acordar cuspindo água pra todos os lados, nu na areia, com dois salva vidas e uma multidão a me observar. Certamente eu não quis morrer. E sem querer continuar sendo o centro da atenção de toda aquela gente desnuda e menos nu do que eu, não quis permanecer ali. Voltei descalço, ensopado e pelado para o meu hotel. Não quis me explicar pra ninguém, não quis as toalhas que me ofereceram e não quis pegar meu elevador privado. Entrei no elevador geral, porque não queria privar os meus hóspedes da minha visão. Não quis fazer mais nada naquele dia e, por não querer, sentei-me à varanda e fiquei a observar o mar que quis me levar e eu não quis ir. Era um desafio não querer. Eu não quis, eu não quero, eu não quererei. Fiquei ali até acabar aquele dia sem querer. Amanhã talvez fosse outro dia...
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