Metade não é tudo


Que os passarinhos continuam cantando, não basta. Sempre que olhamos pro céu vemos duas enormes bolas de fogo onde antes tinha uma só - e é a contagem que deveria ser. Isso agora, que conseguimos ver o céu. Porque antes, era tanta fumaça, que o céu virou uma enorme redoma cinza. Ninguém nem lembrava que ele era azul...

Mas as notícias já corriam. O planeta estava passando por mudanças. Das grandes! E nós, claro, pagaríamos o pato (se pato ainda existisse, porque foi extinto, então nesse momento era só mesmo uma força de expressão). Ninguém sabia quanto tempo iríamos durar, mas provavelmente ainda muito. Pra se ter uma ideia da loucura, a corrente mais fácil de se acreditar é que Deus - em maiúscula - desistiu da humanidade e desceu o purgatório pra todo mundo já ir pagando os pecados de uma vez, já que eram muitos e, se fosse pro mundo acabar de repente, não teria jeito.

As preocupações eram das mais diversas e as alegrias também eram as mais intensas. É engraçado o paradoxo do acabar. Alguns se preocupam com o fim, outros ignoram tudo pra gastar toda a alegria possível no tempo que resta. Pra mim, na verdade, tanto faz. A única coisa que eu consigo pensar é na torta de maçã.

Na minha época, a maçã era uma frutinha doce que dava em árvores. Tinha de outras cores, mas eu gostava da vermelha. Certo dia, fui à padaria de costume e vi um pedaço de torta de maçã numa das vitrines. Caminhava até lá quando uma pequena cabeça entrou na linha reta entre meus olhos e - meu - pedaço. Era uma criança que, pra infelicidade dela, pedia à atendente que lhe entregasse o pedaço da torta de maçã. Quando chegou minha vez de pedir, descobri que não havia outra torta reserva, uma que eles partiriam o primeiro pedaço bem quentinho pra mim. A criança havia levado o último pedaço da última torta de maçã da padaria. Maldita criança!!!

Saí irado pela rua atrás daquele menino. Crianças são pequenas coisas levinhas que andam muito devagar. Culpo a aerodinâmica. Encontrei com o pestinha duas esquinas depois. Gritei e ele virou pra trás, segurando na mão metade do pedaço de torta que deveria ter sido meu. Ele ainda mastigava o recheio. Tirei a torta da sua mão e, quando ele começou a reclamar, deu um empurrãozinho de nada e saí andando, agora sim, com o meu - meio - pedaço de torta na mão. Dizem que uma bicicleta acabou atropelando o menino quando o mandei pra rua, mas eu não vi, não sei, nem faço questão. A torta de maçã estava uma delícia!

Mas tinha um problema. O pedaço era incompleto. Eu comi só metade! Eu, um homem inteiro, comi metade. Aquele menino, metade de homem, teria comido o pedaço todo se não fosse minha intervenção assertiva. Nunca mais as pessoas da padaria me venderam qualquer pedaço de torta. Eu não podia mais entrar no estabelecimento. O que eu achei um absurdo completo!!! Quando me chamaram de "mesquinho" devolvi logo um "rancorosos" de volta. Povinho vingativo. O pedaço era meu. Não vendesse pro menino e ele não teria quebrado braço nenhum.

Agora, com esse apocalipse iminente, todo mundo reduz ou aumenta tudo, conforme convém. Esses dias, encontrei um grupo reclamando da extinção das maçãs. Me senti convidado a participar da conversa e comentei que o meu problema vem de muito antes. O meu problema foi a extinção da torta de maçã, que me foi imposta por uma padaria por causa de um molequinho. Tiveram a coragem de me perguntar "o que é meio pedaço de torta de maçã em comparação com o fim do universo?" Ora!!! Como assim? O universo que se exploda - e vai explodir mesmo. O meu mundo é um pedaço de torta de maçã! E errado está quem não concorda comigo.

Não é difícil entender porque um planeta habitado por humanos está fadado a acabar.

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