Ando tentando caber nas minhas roupas antigas como se isso me fizesse caber de novo em mim. Também ando sentindo dores estranhas e tendo insônias absurdas. Numa dessas, levantei da cama e fui ao banheiro. A luz chiou antes de acender com preguiça - de madrugada tudo dorme.
A imagem que eu vi no espelho piscou. Apertei os olhos por força do susto, afinal levantei exatamente porque não estava sonolenta. Aquilo no espelho me encarava, mas não é possível que era eu! O cabelo mais bagunçado que o normal, enormes olheiras, gorduras num lugar, pelo e osso em outros... Era assustador. Apaguei a luz.
Ao acender de novo, outra coisa apareceu no espelho. Uma pessoa diferente, mas na qual eu também me reconheci muito pouco. Esta estava absolutamente alinhada, não tinha nada fora do lugar. Cabelo certo, peso certo, pele certa. Acho que abri um pouco a boca, admirada. Se meu dedo não tivesse, sem querer, descido no interruptor, eu teria babado.
A luz apagou e eu voltei a acendê-la ansiosa por rever aquele reflexo, mas apareceu outro. Agora eu estava não só confusa e insone, mas curiosa. Olhei pro terceiro reflexo que me rebatia com olhos desafiadores e comecei minha determinada iniciativa de queimar a luz do banheiro. Acende, apaga, acende, apaga, acende, apaga, acede, apaga. Cada vez um reflexo diferente!
Mas o que tinha acontecido com o espelho do meu banheiro!? O que estava acontecendo dentro da minha cabeça que não dormia há dias?! Talvez se eu estivesse sã e em dia com a minha terapia, eu poderia até desenvolver qualquer raciocínio de que cada reflexo representava uma parte do que eu era ou uma parte de quem eu queria ser. Podia partir daí pra entender que eu estava ali insone encarando no meu reflexo as minhas frustações comigo mesma e os meus objetivos. Mas eu fugia da terapia há um mês, não dormia há duas semanas e tinha acabado de gastar toda a minha capacidade cognitiva viajando em uma fotografia de dois copos de cerveja que eu havia tirado horas antes num bar. E bebido esses e outros três copos de cerveja depois.
Talvez em outro momento, um pouco mais sóbria e tendo dormido pelo menos cinco horas seguidas, eu volte ao banheiro de madrugada e retome meu jogo de acende-apaga. Gostaria até de investigar o que aconteceria se eu tocasse o reflexo. Com um pouco de sorte e determinado cálculo, eu poderia me encontrar de novo com o reflexo da minha versão perfeita e torná-la real sem a dificuldade de ter que ir à academia todo dia, ou passar horas no salão corrigindo meu cabelo, ou sofrer com a impossibilidade de correção da minha pele... Talvez outro dia.
Agora eu vou voltar pra minha cama, brigar mais algumas horas com a insônia, dormir alguns minutos e torcer pra que, quando acordar, ao virar pro lado e disser "bom dia", meu marido responda com o seu "bom dia" habitual e não dê um pulo da cama perguntando quem sou eu.

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