Eu tinha uma caixa nas mãos e, dentro da caixa, uma vida. Não sabia que vida era, porque a caixa me apareceu lacrada. Mas era possível senti-la pulsar. Toda vida vale muito, independente do peso. E essa era pesada. Aquilo nas minhas mãos me trazia um choro preso que eu não sabia como chorar. Andei com aquela caixa nas mãos, pesando meus braços. Um conforto era saber que, pelo tamanho, ela não escorreria entre meus dedos. Mas, ainda assim, estava ali a vontade de deixá-la. Não se joga pra longe um objeto desconhecido, não se joga pra longe uma vida que não se sabe o que é. Seria uma pessoa? Filhotes de gato, de cachorro? Pequenas galinhas, codornas? Seria uma vida humana? Seria eu, numa outra vida qualquer das que não escolhi viver? A caixa pesava e pulsava, mas não emitia som algum. Exausta por tanto andar sem saber o que fazer com aquilo, sem coragem pra entregar pra um rio ou pra deixar no portão de alguém ou pra cavar um buraco e enterrar ou pra simplesmente abri-la, cedi. Andei o caminho conhecido de volta pra casa, entre suspiros de cansaço e sossego da decisão tomada, entre suor da dúvida e lágrimas, cheguei. Fui direto ao meu quarto, meu espaço de mim. Abri o armário e guardei lá no canto, a caixa. Colocada no lugar, ela se aquietou, pareceu compreender junto comigo a escolha. Ela ficaria ali, uma pequena vida, por quanto tempo fosse necessário à minha vida. Algum dia eu a abriria. Hoje não.
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