Traje passeio completo


Ela andava de um lado pro outro da rua sem saber onde ia. Essa nova cidade velha estava mudada e cada vez mais caótica. Era estranha a sensação de estar naquele corpo, naquelas roupas, naquele lugar, naquele tempo. É como não se vestir à altura pra um compromisso importante. Achou engraçado como os lugares cercam individualidades que parecem se estacionar no tempo. Os tamanhos nunca foram compatíveis, o da cidade, o dela. Sempre uma estava pequena demais ou grande demais pra outra. Mas nesse dia tudo pareceu distorcido, no melhor sentido ácido lisérgico de dizer. Era quase visível a rua se esticando pra um lado, encurtando pro outro, os prédios disformes, as pessoas nos tamanhos beba-me coma-me de Alice. Não era mais seguro dizer que o tamanho das coisas estava relacionado à memória... Feito como quando somos crianças achamos os objetos muito maiores do que realmente são. Não se tratava mais disso... Se tratava da redescoberta da nova palma da mão. O que se via todo dia, o que se conhecia profundamente, havia mudado. A cidade, ela. Ela e a cidade. Elas vão conversar como se conversa pra avaliar o retorno de um relacionamento. Elas tem conversado. Um dia passa o efeito alucinógeno, um dia elas se decidem. Até lá, ela vai continuar, vez ou outra, se perdendo em algumas ruas que eram conhecidas, despertando o olhar pras coisas que antes ficavam perdidas num cotidiano antigo... De repente, tudo é novo.

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