E o que você fez?

Costumeiramente todo meu café na padaria do outro lado da rua. Sou um homem de rotinas, sempre fui. Isso o avançar da idade não tirou de mim. Estava com meu café coado e pão na manteiga quando, no intervalo entre um gole e uma mordida, no passeio do outro lado da rua, desceu um homem. Ele vinha descalço, carregando um balde, o peso de um desajustando o peso do outro. Vinha sem camisa e o balde cheio d'água. Cambaleante. Do outro lado da mão que levava o balde, o braço terminava interrompido, num coto. Apesar de cambaleante e incompleto, o homem descia a rua com vigor. Não era tão velho quanto eu, mas certamente não era jovem. A mordida seguinte me deu a sensação de que meu pão estava mais seco que o normal. Ao homem faltava uma mão e o jeito do joelho, a mim não me faltava nada, mas a vontade de seguir. Oh, distribuições injustas na fila da vida! Mas era dezembro, quase Natal. Não sei o que teria na ceia deste homem, ou se teria uma ceia sequer. Mas torci comigo mesmo pra que fosse farta. Pra mim, torci apenas que, por um milagre natalino, me servissem a gana de viver. Aquela que eu não sei onde ou quando perdi. 

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