Os finais possíveis


Eu preciso de um fone com interrupção de ruídos. Só isso. Mas meu tempo está correndo e acabando. Por que o mundo tinha que se resumir em tanto barulho? Por que as pessoas precisam de tamanho desespero?! Foi tudo amplamente noticiado, todo mundo sabia quando acabaria, como acabaria. É uma questão de organização. Até no fim dos tempos o ser humano só consegue se guiar pelo caos, pela bagunça. Eu só queria terminar de escrever esse livro que ninguém vai ler e contemplar o silêncio. Sozinho. 

Saí do meu apartamento e atravessei a rua com muito custo, quase sendo atropelado umas três vezes por motoristas mal educados, que buzinavam e gritavam pra todos. Abri meu carro, peguei meu fone e, finalmente, sem ruídos. Bem melhor! É impressionante como os olhos ficam mais espertos no silêncio. Minha história fala um pouco disso, apesar de que quando comecei ainda não sabíamos de nada. Acho que devo ter uma pequena inclinação à premonição.

Meu livro fala de um mundo que amanheceu certo dia no silêncio. Os pesquisadores ficaram todos intrigados, o som desaparecera, as ondas sonoras simplesmente pararam de se propagar. O mundo entrou em pânico, todos juntos. Os meios de comunicação tiveram que se adaptar rapidamente pra conseguir propagar as notícias. Mas é claro que seria possível continuar, como vocês acham que vivem as pessoas surdas? Foi impactante ter que encontrar outra forma de se comunicar que não pela palavra falada, que não pelo som. Os olhos nunca foram tão vistos. Parei minha escrita no momento em que, depois de muito tempo de silêncio, não me lembro mais quando, todos começaram a ouvir um zunido. Ainda precisava definir se esse zunido aumentaria a ponto de ser ensurdecedor e o que aconteceria depois. Todos voltariam a ouvir? Aconteceria outro fato estranho?

Seguindo meu caminho em meio ao caos e com meus fones bloqueadores de ruído eu tentava organizar na minha cabeça o que aconteceria com o meu mundo fictício enquanto meu mundo original ia por água abaixo - quase literalmente. Meu celular vibrava tanto dentro do meu bolso que em uma esquina qualquer o joguei o mais longe que consegui. Pra que essas pessoas estão me procurando? Que agonia! Hoje deveria ser um dia como outro qualquer.

Quando chego no parque, onde me sento na grama perto de alguns cachorros de rua, já decidi como a minha história termina. Preciso de cerca de uma hora e meia pra terminar de redigir na minha bolha silenciosa enquanto, lá fora, carros batem uns nos outros, pessoas correm gritando e chorando em desespero, o céu troca de cor incontáveis vezes e o vira lata ao meu lado tira alguns cochilos. Concluído, escrito o fim, coloco o material acabado dentro do tronco de uma árvore, era o que dava pra fazer, não cavaria um buraco ali sozinho, não agora. Vai que um dia encontram esse livro como um dos únicos resquícios do mundo que acabou.

Concluída minha missão, deito na grama e olho pra cima. Fico ali, tranquilo, pensando no fim.

Comentários