Oh, deus sem borracha

Era uma vez um menino que nunca erraria. Nasceu no dia certo, na hora certa, da forma certinha. Passou uma infância sem erros, mas foi na escola que começou a entender essa peculiaridade da sua existência. Constatou assertivamente que não, ele nunca erraria. Sempre fez os amigos certos, tirou total em todas as disciplinas e seguiu, com uma única borracha, do primeiro ano do ensino fundamental ao último ano do ensino médio. Nunca usou aquele pequeno dispositivo de consertar erros. Erro? O que era isso? Não sabia e nunca descobriu. Graduou-se numa engenharia, ciência exata qualquer, com grande êxito. Afinal, não errou em nada durante todo o curso. Homem, notou que nunca errou no trabalho, nunca errou com as pessoas, nunca errou nos palpites de sorte. Começou a se sentir o próprio erro. Começou a se questionar sobre o ganho de uma vida feita de acertos. Começou a se sentir solitário, nenhuma pessoa, qualquer que seja - cientista, religioso, cético, golpista - conseguiu provocar com que ele errasse. Era isso. Ele era um erro por existir, mas fadado a uma vida repleta de acertos dos quais, tardiamente, ele percebeu que não tinha controle. Decidiu se fazer ser visto e desafiar a qualquer um que o provocasse a cometer um erro. Até o último ponto final desse texto ninguém conseguiu. Aliás, percebo que cometi aqui um erro. Iniciei meu relato com "era uma vez", mas isso só se usa para contar histórias impossíveis que não acontecerão nunca, mas esse texto é um relato real, verdadeiro. Verídico!!! Com informações confirmadas sem erro. Deveria ter começado então com "Houve um menino que nunca erraria". É, errei. Percebe-se que não se trata de uma autobiografia.

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