Verão


Chovia. Aquelas tempestades de verão intermináveis que vem pra mostrar que somos todos divididos. Enquanto ela chora fechada no quarto, olhando a cidade sumir entre os pingos, a outra chora vendo sua casa escorrer com a enchente. A dor é desmedida, não importa o lado. Pra ela sobrou tudo que era dividido, tudo que parecia pequeno demais. Mas agora está vazio, está assustadoramente grande. Pra outra sobrou o questionamento do recomeço. O que faria agora, por onde iria de novo. Há perda em tudo o tempo todo. Se perde no silêncio, se perde no dizer. Se perde na escolha, se perde no não poder escolher. A dignidade delas sempre foi calculada em peso injusto, ainda que tenham chegado a lugares tão diferentes. Restam os olhos vidrados das pessoas de quem a vida não acerta mais. O marejar não se sabe se é da chuva ou da dor. Ela vai sair de casa um dia e não vai voltar. A outra vai reconstruir sua casa em outro viaduto e aguardar silenciosamente a próxima enchente. Cada uma é sua casa, e cabe a cada uma decidir se reconstruir ou se abandonar.

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