O Bar do Celso é famoso. Fica naquela cidade de interior que todo mundo sabe da vida de todo mundo, numa esquina estratégica que, atravessando a rua pra um lado dá numa delegacia e atravessando a rua pro outro lado dá numa igreja. O bar pelo menos é unânime, atende a clientela de Deus e do delegado sem distinção.
O dono do bar, Celso, já tinha um faro bastante apurado pra perceber quando ia aparecer confusão. Naquela terça-feira qualquer, o radar dele não falhou.
Chegou um homem, com o semblante bem baixo, sentou no balcão e pediu um café. Ele estava inquieto, jogou a cafeína pra dentro como se fosse shot. O pé dando pancadinhas nervosas no balcão. Estava despenteado, Celso poderia apostar uma garrafa de bebida que esse cara não tinha dormido na última noite.
Pouco tempo depois, chegou outro homem, sentou a um banco de distância do primeiro e só acenou, indicando que, por enquanto, não pediria nada. Ao contrário do outro, estava bem vestido, com o cabelo milimetricamente no lugar, era quieto e olhava fixamente pro fundo do balcão.
- Vou morrer - disse o homem quieto depois de longos instantes de silêncio desconfortante.
- Todos vamos, cara. - respondeu o outro homem depois de três copos de café.
Era um pensamento alto, o primeiro homem se assustou ao receber a resposta e encarou o outro com os olhos acessos de café. Ele se aproximou, com a perna ainda batendo no pé do banco e sussurrou:
- Mas você vai morrer porque vai ou porque quer?
O homem quieto suou frio, engoliu em seco e respondeu, num sussurro ainda mais baixo:
- Eu quero.
O primeiro homem voltou a se sentar, sorriu sozinho jogando ar pra fora, olhou pro segundo com um meio sorriso e fez um sinal com a cabeça pra ele pular pro banco que os separava. O segundo olhou desconfiado para os dois lados, encontrou o olhar curioso do Celso no espelho ao fundo do bar e pulou de banco.
- Como você sabia que eu queria morrer?
- Talvez por faro. Porque eu estava procurando um motivo pra ser preso. Matar é uma opção.
- Você quer ser preso?! - e mais baixo - Você pode me matar?!
- Você tá me pedindo um favor?
- Você tá aberto a negociação?
O primeiro homem fez um gesto pedindo duas doses de cachaça, que Celso logo entregou.
- Eu não bebo.
- Bebe sim, você vai precisar. Mas então, porque você quer morrer?
- Porque eu não quero mais viver, estou cansado.
- Péssima resposta.
O segundo homem olhou para o primeiro numa mistura de surpresa e medo.
- Se não for suficiente pra me matar, eu posso pensar numa resposta melhor, vou precisar só de uns minutos. Mas e você... Por que quer morrer? - perguntou o segundo homem com a segurança que só a cachaça o poderia ter dado.
- Bom... Deixa eu te contar umas histórias...
Foi a melhor conversa que Celso acompanhou desde que herdara o bar do pai, uns cinquenta anos atrás. Filosofia de gente desesperada das melhores! Celso ia servindo doses de cachaça sem os homens nem perceberem, absortos nos seus motivos de escolher ou não a vida. Tarde da noite, os dois homens se despediram do Celso, atravessaram a rua e foram pra dentro da igreja. Um disparo depois, apenas um homem atravessou a rua novamente, mas agora em direção à delegacia.
No outro dia a cidade inteira estava alardeada! Um homem fora baleado na casa de Deus e o responsável andou por vontade própria até o estabelecimento do delegado. Só não entendiam os porquês... O corpo no chão da igreja era jovem, mesmo morto ainda tinha um olhar agitado. O que atravessou a rua, apesar do forte cheiro de cachaça, era bem apessoado, bem vestido e bem penteado. E as histórias dos dois correspondiam exatamente às primeiras impressões.
A cidade estava confusa. Celso, não. Celso sabia. E ficou de pé atrás do balcão do bar, ouvindo de quando em quando os comentários e rindo sozinho.
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