Estou cansada. Essa é a afirmação mais verdadeira pra mim nos últimos tempos. Fui engolida por uma rotina frenética e minha cabeça tenta acompanhar a velocidade da vida sem desparafusar do meu pescoço e sair rodando por aí.
Hoje eu trabalho numa sala sozinha, isso não ajuda em nada. Às vezes penso que quanto mais se faz silêncio, mias os pensamentos se agitam, afinal o espaço é só deles, todo deles. Em algum momento eu decidi deixar a porta aberta o tempo todo, inclusive enquanto faço reuniões na frente do computador, o que é equivalente quase ao meu horário de trabalho todo.
Eu seguia no meu afogamento, pensando se deveria procurar no Google por "sinais de estafa mental", quando precisei sair da minha sala-caverna pra uma reunião presencial (aleluia). Fiz o de sempre, apaguei as luzes e fechei a porta. Nem lembro no que deu essa reunião, quem estava ou o que aconteceu. Fato é que quando voltei pra minha sala, andando devagar pra variar da correria atlética que a rotina pede, cheguei perto da porta e ouvi sussurros. Eu sabia que a sala estava vazia, que não tinha ninguém. A porta era de vidro e a enorme janela que ficava do lado também. Minha sala é claramente visível pra qualquer um que passa de fora.
Naquele minuto eu tive certeza de que sofria de uma estafa mental incurável (mentira, o remédio poderia muito bem ser férias). Quando aproximei meu ouvido da porta entendi que quem falava lá dentro eram meus pensamentos, conversando entre eles, os pensamentos que pensei ali dentro antes da porta fechada. Foi um choque. Apesar de tudo, eu ainda me considerava uma pessoa dotada do mínimo de sanidade mental. E, de repente, a vida te faz ouvir seus pensamentos por detrás de uma porta que te leva a uma sala vazia. Grudei o ouvido na porta. As pessoas das salas vizinhas devem ter tido certeza de que eu era louca. As dezenas de estagiários, todos jovens, enquanto me viam fazendo aquela coisa estranha - provavelmente, com uma cara mais estranha ainda - certamente tiveram medo de chegar na minha idade.
Aquilo era assustadoramente maravilhoso!!! O pensamento da manhã "respira, é o meio da semana" parecia estar numa sessão de terapia muito séria com o pensamento do almoço "respira, intervalo". Os pensamentos dos problemas de trabalho foram os que me deixaram mais impressionada! Uma dúvida conversava com outra dúvida e elas simplesmente se resolviam sozinhas! Como assim?! As soluções dos meus problemas estavam dentro da minha cabeça (ou da minha sala?) o tempo todo e eu não as encontrei! Agora, com esse conhecimento, julgo que minha vida vai ficar muito mais fácil. Vou soltar meus pensamentos ali, sair, depois voltar e colar o ouvido na porta e SURPRESA! Todos os meus problemas vão estar resolvidos!
Será que eu deveria estar anotando essas soluções que eu ouvia? Porque, muito provavelmente, quando eu entrasse na sala, os pensamentos voltariam todos pra dentro da minha cabeça de novo e eu esqueceria de tudo porque "sinais de estafa mental - enter". Abri meu caderno, destampei minha caneta e lá estava eu, fazendo anotações com a orelha grudada na porta de uma sala vazia de luz apagada.
Naquele momento, quase todo mundo que trabalhava no meu andar já tinha parado o que estava fazendo pra me observar. Aposto que alguns se perguntaram se deveriam chegar perto e oferecer ajuda. Mas e se for contagioso? Melhor não.
Eu anotava freneticamente, até que o pensamento de nove da manhã encontrou o de uma e meia da tarde e, ah, isso sim foi um estrondo! Provavelmente eu desmaiei. Quando abri os olhos estava deitada na mesa da minha sala, que estava com as luzes acessas e a porta aberta. Um grupo de pessoas estava do meu lado, com olhos assustados. Uns mediam meu pulso, outros passavam qualquer coisa de cheiro no meu nariz.
- Não! Não era pra abrir a porta! Só faltava um problema pra resolver!

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