Deglutição

Normalmente coisas terríveis fazem barulhos altos. Era o que eu pensava até esse inseto me comer por dentro silenciosamente. No começo pensei que fosse uma doença, dessas incuráveis. Mas aquilo se mostrou muito pior. Eu tinha fome. Uma fome aguda grave em último grau, sem critério qualquer que fosse. Primeiro saciei a fome da boca. Comi tudo que havia nos armários e na geladeira. Se tivesse um animal de estimação teria comido sua comida (e ele também, de sobremesa). Engoli o máximo que meu corpo suportou, mas em algum momento ele quis colocar tudo pra fora. A fome é insaciável. Envolto na minha própria ruminação, decidi compensar outra fome. Li todos os livros que haviam na minha casa, na língua que eu falava e em outras línguas que nem faço ideia ainda quais sejam. Quis comer os papeis todos, mas outra fome me chamou atenção. Um porta retrato velho, com uma foto de alguém que eu nem me lembrava. Peguei meu telefone e decidi saciar meu peito. Liguei pra tantas e tantas pessoas com quem não falava há tempos... Conversei com todas elas até começar a doer em mim. Me doía o peito, me doía a cara. Me faltava o ar, me faltava o senso. Gargalhei tão alto, que todos os vizinhos devem ter notado a tamanha fome que me acometia. E chorei. Copiosamente, chorei. Se a fome dói, a sede incendeia. Ao engolir minhas lágrimas, salgadas além da conta, percebi que, pra além da fome, agora a sede havia me encontrado. Era isso, era meu fim, era fatal. E a escolha foi minha, o tempo todo, foi minha. Eu escolhi curar minha fome e minha sede, eu escolhi me saciar. Escolhi pular da janela do quinto andar na piscina que ficava lá no térreo. Depois de mim, tamparam aquilo ali e a piscina virou horta. Alguém deve ter rido da minha cara sem querer.

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