O cata vento apocalíptico


Quando era menino, eu tinha um cata vento no quintal. Ele era bem grande e eu passava muitas horas olhando ele girar e girar e girar. Já estou acostumado com pessoas me dizendo que eu não era uma criança normal, então não vou me abster de dizer que eu chamava meu grande brinquedo de Cata Vento do Apocalipse. Essa última palavra estranha eu ouvi nas missas que minha mãe me levava aos domingos. Morávamos num pequeno fim de mundo, na igreja tinha cerca de quarenta pessoas, que era quase toda a população da nossa cidade, desconsiderando só quem estava bêbado demais pra rezar ou não era digno de pisar na casa do Senhor Nosso Bom Deus. Tudo aquilo tinha muita cara de fim de tudo, o que só me dava certeza do nome do meu cata vento. A vida de uma criança é um conjunto de decepções criativas. A minha não foi diferente. Toda vez que o vento mudava de direção eu esperava que alguma coisa acontecesse. Que caísse um meteoro, que todos os fios estourassem, que o sol aumentasse um milhão de vezes de tamanho, que todos os animais saíssem correndo descontrolados... Nada nunca aconteceu. Eu cresci e não saí dali. Parece que ninguém saía. Era um lugar fadado a simplesmente permanecer. Mas eu, pelo menos, não contribuí pra essa permanência, não me casei com ninguém dali nem tive filhos - não que alguém quisesse, eu disse que era uma criança estranha. Enterrei meus pais e dois sobrinhos. Meus irmãos, mais normais que eu, se casaram e andavam pra lá e pra cá com uma penca de filhos. Mas a vida de um adulto é um conjunto de frustrações esperançosas. A gente nunca sabe de onde vêm os ventos que trazem a mudança. Meu pequeno cata vento já tinha ficado pra trás como um brinquedo de criança. Eu precisava de um que me atendesse. Fiz um novo cata vento do apocalipse, esse eu tinha certeza que veria o fim do mundo. Demorou. Mas era certo. Depois de muitas viradas de vento normais, das que eu tinha passado uma vida inteira a acompanhar, algo estranho, pelo qual eu tanto esperei, aconteceu. O cata vento começou a girar de uma forma totalmente sem sentido. Ele girava e uivava com a velocidade do movimento. Apertei bem os olhos pra tentar entender e, de repente, parou. Tudo parou. Nenhum vento soprava. No outro dia o sol simplesmente não nasceu. Eu nunca me senti tão feliz!!!

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