Eu gosto da folha em branco, esse monstro que assombra tanta gente. Me traz um sentimento libertador saber que eu posso colocar naquele espaço o que bem entender, que ele está limpo, intacto, apenas à espera. Prefiro a folha em branco à folha escrita. Corrigir um texto pronto, além de dar infinitamente mais trabalho, é mais desgastante, e tão limitador que chega a ser desprazeroso. Quando a folha está vazia, não há obrigação com o que vai ser revelado por ela, não há imposição de expectativas, há apenas a possibilidade de nascimento de uma personalidade novinha em folha, se me permitem o trocadilho (a folha em branco permite, percebam). Eu não gosto de reflexões de final de ano. É só mais um dia depois do outro, uma semana depois da outra e continuamos as mesmas pessoas. Mas nós, os pouco evoluídos humanóides, precisamos desses ritos de passagem, precisamos de intervalos marcados pra nos permitir parar um pouco e respirar sobre o que queremos disso que chamamos de novo - que nada mais é do que uma folha em branco. Então, já que me pediram para escrever sobre o ano que se inicia, já que me agrada tanto a folha em branco e suas possibilidades, não quero ser eu a limitar ninguém. Gostaria de dizer apenas isso: deixem o título por último, pensem nele no final, quando a folha já estiver preenchida. Essa é a liberdade de ser o que se é pra só depois entender o que se foi.

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