Estava me preparando para começar o trabalho quando ouvi um baque surdo na obra ao lado. Isso era manhã, mas segui como se nada tivesse acontecido até quase o almoço. Só à tarde vim a saber que o barulho era de um corpo, de alguém que caiu.
Que barulho faz um corpo... Depois de saber que se tratava de uma pessoa, o barulho retornou à minha cabeça e ficou ecoando, feito um relógio que marca a hora, mas uma hora constante. Foi um barulho feio, um barulho nada sonoro. Pensei em como somos ocos, e é só na queda que percebemos que não temos de fato nada a nos preencher.
Pra onde vão os pensamentos, as ideias? Espertas, elas devem pular pro ar antes, pra não sentir o impacto. Uma vez no ar, fazem o quê? Buscam outro corpo? Será que tenho dentro de mim as ideias fugidas de outro alguém que, em algum descuido, caiu? Já os sentimentos, estes devem ser mais densos. Se as ideias fogem no nono andar, os sentimentos só devem conseguir sair lá pelo terceiro.
Eu nunca tive muitos sentimentos, talvez por isso arrotasse tanto a esmo. E agora fiquei com medo dos poucos sentimentos que consegui nutrir. Vai que são sentimentos de outra pessoa e não meus?! Era só o que me faltava, ter que sentir pelos outros.
Eu não dormi na noite do dia que alguém caiu na obra ao lado. Amarguei a ideia de ir visitá-lo no outro dia, só pra assegurar que, se fosse necessário, eu poderia arrumar um jeito de devolver qualquer ideia ou sentimento dele que porventura tivesse entrado em mim.
Restava saber se eu o visitaria no hospital ou no necrotério. Isso eu descobri por volta da hora do almoço. Algumas duas semanas depois de visitas frequentes, eu descobri, próximo da hora do jantar, que passaria o resto da vida com a pessoa que fez barulho oco quando caiu no chão.
A vida é um vácuo estranho. Num momento queremos devolver o que preenchia o vazio, no outro estamos compartilhando ideias e sentimentos entre corpos. Cair no outro pode ser bom.

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