Bom espetáculo!

Sei que vou ser rápido, então escolhi ser vários. A vida me fez ator porque a morte era o cachorro que eu levava na coleira. Nunca me iludi que alcançaria a velhice. Mal me convenci de que conseguiria me agarrar às cortinas da idade adulta. Se vivêssemos ainda nas civilizações que matavam bebês com problemas de saúde, bom, enterrada estaria minha existência. Isso não me reconforta. Quando dói, penso se esses métodos arcaicos não estariam corretos. Mas só quando dói. Arcaico por arcaico, prefiro os métodos do teatro, os métodos de ser outro, de ser quase completo. Em cada personagem posso ser inteiro, posso me apagar de mim. É um alívio tão tremendo, que só saberia calcular quem momentaneamente fechou as cortinas da própria vida. Quando a última luz se apagar, estarei sorrindo, vestido de outro, contando, sem dedos suficientes, quantas pessoas já fui. Meu par sou eu mesmo. Não quero me ver na obrigação de multiplicar bebês subliminarmente enterrados. Não quero completar outro se não completo nem a mim. Eu sou só. Só eu e meu cachorro na coleira, a morte. A segunda sirene do meu espetáculo já tocou há um tempo. As luzes já se apagaram lá fora, ouço o murmurinho dos que me esperam assistir. Respiro fundo. A vida é uma ininteligível obra de arte. Uma peça confusa, um quebra cabeças sempre incompleto. A vida é o abrir e fechar de cortinas sobre a face. Toca a terceira sirene. É o último sinal, para o ator e para o público. Vou. Senhoras e senhores, o espetáculo vai começar!

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