Eu me matei ontem. Essa não sou eu. Abrir os olhos pela manhã nunca fez tanto sentido. Não estranhei meu reflexo quebrado no espelho, mas estranhei os objetos todos no lugar. Pela minha falha memória, ontem, na minha intensa briga corporal comigo mesma, acabei virando a sala de cabeça pra baixo. Lembro inclusive de me digladiar no chão, empurrando os pés da mesa de vidro que se estraçalhou. Tirei um caco do meu cabelo pra confirmar. Mas não, tudo está aparentemente em ordem. As roupas da minha assassina estão todas penduradas no armário, como de costume. Vou vesti-las novamente, mas comprarei roupas novas. Minhas. Essa que abriu os olhos hoje.
Se eu soubesse que me matar seria tão libertador, teria feito isso antes. Não, não teria. Ainda não tinha a melhor forma. Não sabia se seria colocando alguma coisa na minha bebida, ou no meio da cozinha com muito sangue, ou numa exposição de horrores, me jogando no meio da rua. No fim das contas, fui discreta. Me matei e morri pra mim mesma, dentro de casa. Uma morte imperceptível, sem expectadores, mas com tamanha violência.
Nunca fui suicida, então estou veementemente certa de que foi, sim, um assassinato. Eu não queria morrer e eu queria me matar. A vontade de matar de quem mata e a falta de vontade de morrer de quem morre, deve configurar exatamente isso: um homicídio. Ou um egocídio. Ou um eucídio. A verdade é que tanto faz. Essa que abriu os olhos hoje, essa que não sou eu, essa que me matou ontem, todas nós, não nos importamos mais.

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