Odete e Osmar eram um casal de dar gosto. Os dois tinham nomes de cinco letras, se conheceram aos quinze anos, casaram aos vinte e cinco e ficaram juntos por cinquenta. Odete morreu aos setenta e cinco anos de idade, deixando seu querido Osmar sem saber ao certo o que fazer sozinho.
Mas Odete sempre pensou em tudo. Na morte não seria diferente. Odete não morreu ao acaso, ela tratava uma doença que sabia que a levaria. Ouso dizer que ela sabia exatamente o dia que gostaria de morrer e se planejou pra isso. Escolheu fechar os olhos enquanto dormia na tarde do dia cinco de outubro de dois mil e quinze.
Planejamento por planejamento, eis que quinze dias após a morte de Odete, chega uma caixa no correio de Osmar. A caixa era parda, não tinha nenhum selo ou anotação de remetente, estava escrito apenas "Ao meu querido Osmar" na caligrafia inquestionável de Odete. Osmar precisou se sentar. Não chorou, porque não era inesperado que a super planejada Odete tivesse algo programado para ele mesmo após a sua morte. Apenas suou frio. Estava começando a entender o que era ser cinco letras, preparado para não ser mais dez e, quinze dias depois, eis que retornam as conhecidas letrinhas.
Osmar nunca foi uma pessoa curiosa, essa era uma característica de Odete. Mas sempre foi desconfiado. A caixa ficou uns bons dez dias encostada no canto do móvel da sala até que ele se decidisse por abri-la. Depois de jogar uma espessa camada de plástico bolha fora, eis que surge ali o presentinho de Odete: um cubo de acrílico com um olho dentro. Não é possível descrever em palavras um susto de um viúvo de cinco letras ao descobrir que será observado pela companheira de cinquenta anos após a morte que partiu ao meio o casal de dez letras.
Que ideia foi aquela? Odete deixou tudo planejado, sabe-se lá com quem, pra que o olho dela retornasse ao marido. Não é possível. Esse olho não deve ser verdadeiro. Deve ser uma réplica daquelas feitas pra estátua de cera. Osmar entendeu que não era, logo que teve esse pensamento e o objeto olhou pra ele com ar de esposa que coloca o marido de castigo. O olhar que Odete direcionava a Osmar sempre que ele duvidava da capacidade dela pro que quer que seja.
Valha-me Deus! Minha esposa vai me observar do além! Eu vou jogar isso fora. Jogaria, se tivesse coragem. Mas Osmar, apesar do avanço dos últimos quinze dias, ainda era cinco letras e meia, não jogaria um pedaço sequer de Odete no lixo. Preferiu colocar na estante sobre alguns livros.
Pense o quanto é incômodo se sentir observado dentro da própria casa. Aumente esse incômodo para ser observado dentro da própria casa por alguém que também chamava aquela casa de própria, mas não está mais lá. Osmar ia ao banheiro, o olho o seguia. Osmar ia pra cozinha, o olho o seguia. Osmar sentava no sofá para ler o jornal, o olho o fustigava a nuca. Osmar virou o olho. Pronto. Agora Odete só veria o fundo da estante.
Osmar ingênuo. Não foram necessários nem cinco minutos pra que ele percebesse que o olho se desvirou e estava agora o encarando com aspecto deveras raivoso. Osmar, Osmar... Cinquenta anos com Odete e você ainda não aprendeu. A solução era sair de casa.
Osmar acordava pela manhã, tomava seu café, pegava o jornal na porta e saía. Ia ler na rua, sentar num banco de praça qualquer, almoçar num restaurante que estivesse por perto, gastar a tarde caminhando e voltaria pra casa só à noite, pra tomar um banho e ir direto se deitar. O olho parecia ficar até vermelho na estante de tanta raiva. Certo dia ele apareceu no chão. Será que Odete tentou segui-lo e caiu da prateleira?
Tudo bem, então vamos conversar. Eram cinco letras com o corpo sentado no sofá encarando cinco letras comprimidas em acrílico sobre a mesa no que foi, certamente, um dos diálogos mais densos do casal de dez letras por todos os últimos cinquenta anos. Se aceitasse ser chamado de louco, Osmar assumiria que, por um breve momento, no balançar da cortina pelo vento, viu escorrer uma lágrima dentro do acrílico. Era isso. Odete estava preparada para morrer, mas nunca esteve preparada para deixar Osmar para trás. E o contrário era tão verdadeiro quanto. Osmar não estava preparado para perder a companheira de cinco letras, mas estava preparadíssimo pra continuar vivendo.
Temos um empasse respirando em frente a um acrílico. Não sei o que Osmar fez com o olho de Odete ou quando. Não sei nem quem era Osmar, não cheguei a conhecê-lo. Não sei também quando foi que Osmar reencontrou Odete e voltaram à paz de ser um casal de dez letras. Não sei, ainda, como isso foi feito. Fato é que essas informações que eu deixo aqui vieram num bilhete muito bem escondido no fundo falso da caixa de madeira que comprei num antiquário e que continha dois cubos de acrílico: um com um olho azul e outro com um olho preto.

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