Previsão do tempo


Eu olhava a janela todos os dias, inclusive naquela quinta-feira nebulosa. Não porque era minha função, mas porque eu gostava de saber sozinho, sem auxílio dos meus equipamentos, o que iria acontecer.

Achava estranho o tempo estar daquele jeito. Era primavera. Na primavera dos bons tempos nunca chovia. Consultei meus equipamentos que diziam que não, faria sol. Sol quente!

Mas meus olhos não podiam estar errados... Mandei pros jornais o que eu via e solicitei manutenção nos meus equipamentos. Estranhei quando começaram a chegar as cartas de reclamações. Algumas diziam que não poderiam mais anunciar previsões do tempo tão erradas, os telespectadores não estavam satisfeitos. Outros, ainda mais enraivecidos, diziam que tinham voos para controlar, não podiam ficar desperdiçando o ensolarado tempo primaveril com suas aeronaves no chão. Não havia uma única nuvem no céu afinal, de onde é que cairia tamanha chuva?!

Cogitei um incêndio. Só podia ser um incêndio. Era isso que estava anuviando meus olhos e me fazendo errar. Mas teria que ser um incêndio dos grandes! Procurei no meu computador, forçando os olhos para enxergar a tela por detrás daquilo que eu chamava de neblina há uma ideia atrás, mas agora começo a pensar que é fumaça. Não há notícia de incêndio algum. Meus equipamentos também retornam das vistorias sem nenhum defeito a corrigir, todos estavam em pleno funcionamento.

Pronto. Era o sinal divino da aposentadoria. Eu deveria parar. 

Não. Não! Não!!! Não tão jovem, não tão cedo, não agora. O céu é o que eu conheço, é o que eu sei olhar. Cheguei a pedir perdão a um deus com quem há muito eu não conversava. "Perdoa se olhei errado pra sua casa. A casa é sua, me mostre pra onde olhar".

Foi só numa segunda-feira quando percebi que a nuvem escurecida estava nos meus olhos. O tempo todo, nos meus olhos. O que faz um meteorologista que não consegue ver? Ora, consulta suas máquinas como qualquer outo. Afinal não somos mais adoradores de fenômenos da natureza que coordenavam nossa colheita. Temos mais o que estudar pra além de queimar os olhos olhando pro céu.

Lancei a moda dos meteorologistas de óculos escuros. Voltei a enviar pros jornais e postos de comando aéreo o relatório exato que minhas máquinas passavam. Nenhuma reclamação voltou a acontecer. A não ser a minha, quando quiseram me operar de catarata.

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