Faz mal pra vista


Pra gostar das pessoas é preciso manter certa distância. Reparar demais é um enorme prejuízo pra vida em sociedade. Digo por experiência própria.

Eu nunca fui bom de vista, usava óculos desde quando, ainda menino, meus pais descobriram que eu não sabia diferenciar a lua da lâmpada no teto da nossa sala. Um dia, acordando assustado de um pesadelo, joguei sem querer meus óculos no chão. Ao levantar, pisei. E lá se foi a normalidade da minha vida, junto dos pequenos pedaços de vidro que faziam crec crec crec, cada vez que eu mexia o pé tentando enxergar o que é que eles estavam destruindo. Mal sabia eu...

Depois de muito apalpar, entendi que aquilo era minha visão partida, querendo rasgar minhas mãos, que seriam meus olhos pelos próximos dias. Daí já comecei a imaginar o estrago. Meus olhos querendo fatiar minhas mãos por pura vingança, por um desastre que quem consumou foi o meu pé. Não seria fácil.

Levei aqueles cacos pra arrumar. Três dias sem óculos. Eu nunca tive óculos reserva. Você já viu o preço dos óculos pra quem tem sete graus de astigmatismo num olho e mais não sei quantos de miopia no outro?! Lá fui eu, tirei minha bengala de cima do armário e fui andando pela rua. Minha realidade passou a ser um universo distorcido, com vultos indo de um lado pro outro e borrões coloridos por toda parte. A primeira experiência livre já foi o suficiente pra eu entender que ficaria trancado em casa pelos próximos três dias.

Na manhã do terceiro dia, também chamado de dia da ressurreição, acordei cedo já ansioso por voltar a enxergar. Quando coloco aquela armação envidraçada nos meus olhos, a surpresa. Nunca enxerguei tão bem. Bem até demais. Bem o suficiente pra enxergar a tristeza no fundo dos olhos do rapaz que consertou minha vista. Enxerguei a frustração nos olhos da mocinha da padaria que me vendia pão quentinho com um sorriso que não era dela. Enxerguei a raiva no olhar do meu vizinho, que me cumprimentava todos os dias como se fosse um velho amigo. Enxerguei qualquer coisa ruim nos olhos de um homem vindo na minha direção e atravessei a rua, quase preferindo um atropelamento do que o que quer que seja que aquele homem traria para mim. 

Chegando em casa, a primeira coisa que fiz foi tirar os óculos. Eu não estava nem um pouco preparado para enxergar coisas que eu não deveria. Ninguém nunca está, eu acredito. Coloquei de volta os óculos e fui em direção ao banheiro, num misto de medo e curiosidade. Eu iria me olhar no espelho.

Alguém deveria ter filmado a cena de um senhor se olhando no espelho. As mãos apoiadas na pia apertando cada vez mais a borda da pedra. Os olhos se arregalam quase imediatamente, são tomados por uma vertente de água, sabe-se lá de onde veio. A boca se abre, a mão que segurava tão firmemente a pia vai trêmula até a boca. É copioso o choro de quem se olha por dentro. 

Sinceramente, não sei quanto tempo aquele par de óculos sobreviverá inteiro.

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