Faxina


Dia desses conheci uma teoria interessante. Ouvindo duas pessoas conversarem enquanto almoçava, o assunto era por que gastamos tanto tempo arrumando a casa. Estamos sempre limpando e a casa está sempre suja de novo. A conclusão foi: "as janelas estão sempre abertas deixando a poeira entrar. Se fechássemos as janelas..."

Se fechássemos as janelas. Fui pra casa matutando sobre aquilo. Olhei cada uma das minhas janelas. Fechei uma por uma. O clima na casa ficou estranho, mas era algo que eu poderia suportar, relevando, focando na experiência da poeira. E então comecei a reparar em outras coisas. Haviam papeis espalhados pelos móveis, na maioria problemas a resolver. Bom, imagino que eles também acumulem poeira. Recolhi todos eles, coloquei dentro de gavetas e fechei uma por uma. Ainda que eu soubesse do acúmulo, os papeis não estavam lá, à vista. No momento seguinte, o que se destacou nos meus olhos foram as roupas e sapatos espalhados, ainda que em cantinhos. Recolhi todos, coloquei dentro dos armários e fechei as portas, uma por uma. Estava tudo abarrotado lá dentro, mas pelo menos aqui fora as coisas começavam a clarear. Mas não era suficiente. Ainda havia comidas embaladas e utensílios usados, provavelmente no café da manhã, ali na minha cozinha. Coloquei as comidas na despensa, passei uma água nas vasilhas e guardei no armário. 

Mas, espera um pouco. O objetivo não era parar de perder tempo com a arrumação? Acabei de fazer errado tentando acertar. Foi então que me ocorreu a principal ideia deste experimento. Se eu mantivesse as janelas fechadas, com as persianas presas, parasse de me vestir ou calçar, comesse direto da embalagem e não colocasse mais nada em papeis, eu não perderia tempo algum com faxina, porque não teria o que limpar. Teria apenas eu, minhas janelas fechadas, minhas gavetas fechadas, minhas portas fechadas. 

Durei um tempo. Não sei precisar se foram horas, dias ou semanas, porque com tudo fechado, eu não conseguia dizer quanto passou. Sozinho, eu não sabia muito o que fazer. Foi então que, acordando assustado de um cochilo, pesquei um pedacinho de cereal do canto da minha boca, logo vi outros no chão. Ao catar os que estavam ali, percebi que meu dedo voltou com poeira, corri para pegar um guardanapo, o que acabou gerando um papel sem ter para onde ir. Meus pés estavam gelados e percebi que meu corpo se arrepiava de frio. Mas as roupas estão fechadas no armário! 

Com um misto de pesar e revolta, entendi que não se foge da limpeza impedindo a sujeira corriqueira. Mas é necessário abrir tudo, colocar cada coisa em seu lugar e estabelecer uma rotina constante de cuidados. Acho que vou começar uma nova experiência. Devo voltar ao lugar do almoço pra, com sorte, encontrar aquelas pessoas e dizer que a teoria delas é falha e eu tenho uma melhor.

Mas depois faço isso. Prioridades. Tem restos de ontem por todo lugar. Farelos que eu preciso limpar. Bom, lá vou eu abrir janelas, gavetas e portas... Talvez chame alguém pra me ajudar.

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