Hóspede de mim


Ser dono de hotel chegou pra mim antes mesmo de eu ser uma pessoa. A família do meu pai é tradicionalmente proprietária da única rede de hotéis reconhecida desta cidade. Antes mesmo de eu nascer, de saberem se eu seria menino ou menina, estava estabelecido: seria dono de hotel.

É engraçado. Meu tempo era dividido entre aprender o que as pessoas da minha idade aprendiam, e aprender como funciona um hotel. Meus pais me mandavam pra escola por pura obrigação, dava pra ver. As únicas disciplinas que me cobravam era português e matemática, porque dono de hotel precisa saber falar e fazer contas. Pra eles o resto não importava. Nem o diploma da escola importava no final das contas, desde que eu soubesse falar bem e fazer contas. Se nunca reprovei em história, geografia ou ciências é totalmente mérito meu. Eu gostava daquilo, dos mistérios, de saber do homem. Mas a escolha já tinha sido feita.

Ainda criança, saber como funcionava um hotel se resumia a pegar as malas menores dos hóspedes e acompanhá-los até o quarto, abrindo a porta e entregando a chave, "O horário do nosso café é de 7h às 10h; não deixe de provar o bolo de ameixa, é uma delícia!". As malas eram divertidas e as pessoas também. Eu ficava imaginando quem eram elas, porquê estavam ali e o que carregavam nos seus pequenos e enormes compartimentos. Minha mãe deve ter me puxado pela orelha umas cinco vezes, porque estava com o olho no buraco da fechadura.

Quando jovem, mamãe criou novas regras: eu só acompanhava os homens até a porta. Mulheres e moças, jamais. Prefiro não pensar muito sobre os propósitos dela ao regrar dessa forma. Alguns comportamentos dos nossos pais nem eles mesmos entendem, só acreditam ser o certo, sem testar se o errado também não funcionaria. Mas não reclamei. Por não acompanhar todos os hóspedes, meu pai entendeu que era uma boa hora e idade pra eu começar a entender os livros. Livro de hospedagens e reservas, livro de horários dos funcionários, livro de compras. Livro de caixa. 

Se as pessoas chamam de graduação o período de treinamento que recebem para poder finalmente ser o que foram predestinados a fazer, posso dizer que minha graduação levou cerca de 23 anos. Foi quando papai decidiu acompanhar de perto uma filial menor e me passou o posto oficial de Dono do Hotel. Então era isso. Eles se mudariam, eu ocuparia a suíte deles e continuaria a viver naquele lugar, mas agora como a única pessoa responsável por tudo.

Hotéis são interessantes, sempre achei. Superada a minha curiosidade infantil, passei a gostar de ideia de um mundo em ordem, programado, sob controle, onde tudo não só é previsível como é previsto e planejado. As engrenagens do hotel giravam perfeitamente sob meu comando e sob meu nariz, junto à penugem falha que eu insistia em retirar todos os dias. Continuei imaginando as histórias por trás dos hóspedes, claro. Mas agora as aulas de português me valiam de forma diferente. Ali, na entrada do hotel e atendendo a todos, sem exceção, aumentava um livro: o livro de hóspedes.

O título sempre era a data de entrada, o número do quarto e um nome. Eu dava à pessoa não o nome dela, mas o nome que a cara dela dizia que ela deveria ter. Não tenho mais o número de histórias que já escrevi, mas quando iniciava meu quinto livro, o sininho do hotel tocou.

- Tem vaga?

Nunca vi nada igual. A mulher que estava na minha frente era diferente de tudo. Diferente de todos que já haviam se hospedado ali naquela cidade pequena de pessoas comuns. Suas roupas, sua maquiagem, seu cabelo, seus olhos... Seu cheiro. Pra ela, respondi:

- Bom dia! A senhora tem reserva?

Mas, mais tarde, no meu livro, escrevi "- Pra um jantar, um quarto ou pra minha vida? - pensou meu coração sozinho enquanto eu entregava a chave".

Ela não tinha reserva, é claro. Era esquecida, então esqueceu que precisaria reservar um quarto. Justo naquele dia, o único quarto disponível era o menor de todos, o que deixávamos reservado para as pessoas que fariam um único pernoite e não teriam condições de pagar nada melhor. A acompanhei ao salão de alimentação e disse que tomasse um café da manhã por conta da casa enquanto providenciaria seu quarto. Corri até a minha suíte, guardei minhas coisas em malas o mais rápido que pude, pedi à camareira que desse uma bela arrumada no lugar e, com uma única gota de suor escorrendo pela têmpora esquerda (que limpei rapidamente, porque dono de hotel não pode suar e resolve tudo com tranquilidade) disse à nova hóspede que seu quarto seria o maior do hotel e estaria pronto em cerca de vinte minutos. 

Desde criança meu pai sempre me ensinou que donos de hotel devem ler os jornais todos os dias. É bom pra se ter uma ideia de quão movimentada estará a cidade e se preparar para grandes eventos ou grandes vazios. No jornal de ontem, diziam que viria uma companhia de cinema rodar algumas cenas de um filme na nossa cidadezinha. Minha intuição estava corretíssima, a mulher que chegara era Maria Emília. A maravilhosa atriz Maria Emília.

Devo confessar que nos dias que ela esteve ali os livros do hotel ficaram defasados de forma geral, especialmente o livro de hóspedes, afinal, naquele momento, só uma importava. Enquanto ela saía para gravar, eu continuava escrevendo a história dela. Numa quinta-feira, o horário de encerramento do hotel já tinha chegado havia muito, nem os funcionários estavam mais de pé. Mas eu fiquei esperando que ela voltasse. Fiz bem.

- Toma alguma coisa?

- Mas é claro!

Meu pai sempre dizia: "Em algum momento você verá a preciosidade de ser dono de hotel!". Vi. Naquela noite. Era como apresentar a Maria minha própria casa enquanto, ao mesmo tempo, apresentava a mim mesmo. Ficamos boas horas no hotel, escolhendo no cardápio de drinques aqueles que eu sabia fazer razoavelmente, depois passando pelos corredores, o salão de leitura, o jardim... E terminamos no quarto que era meu há uns dias, foi dela por outros dias e eu escolhi chamar de nosso.

- Vamos comigo! Ainda faltam mais três cidades para rodar todo o filme! E o próximo, quem saberá?

Era uma proposta do tamanho de um universo para um dono de hotel. Pense! Não ter casa fixa, não saber onde estará num ou outro dia, andar pelo mundo com aquela mulher loira. 

Mas as pessoas estão predestinadas. Eu era dono de hotel antes mesmo de ser eu. No meu livro de hóspedes eu acompanhei Maria Emília. Aqui, durmo até hoje na cama que tem seu cheiro nos lençóis e guardo no cofre suas luvas. Quem sabe um dia não queiram rodar outro filme aqui? Enquanto isso, eu cuido do meu hotel. E continuarei cuidando, até que venha um filho meu para estar no meu lugar. Até que algum de nós seja forte o suficiente pra escolher ser dono de si ao invés de ser dono de hotel.

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