Passeata

Às vezes eu me pergunto por que sou tão maluca. Mas aí a dúvida passa e me vem a certeza que ninguém deveria ser normal. Nesse ponto já estou eu gritando na rua.

No fundo, não me importo, nunca me importei. Penso que se todas as pessoas gritassem na rua, o mundo seria - de fato - mais barulhento. Mas não seria também mais colorido? Mais autêntico?

Haveria, claro, os que se esconderiam por debaixo de mesas, fugindo dos malucos que conversam e cantam sozinhos nas ruas. Acho justo. Nós, os doidos, já ficamos tanto tempo escondidos debaixo dessas mesmas mesas e tossindo poeira por detrás de cortinas velhas que já criamos um universo individual com as colônias de ácaros.

Quem foi que criou a definição de loucura? Quem foi que engessou a normalidade? Com certeza foi alguém que nunca quebrou osso nenhum, ou conheceria a coceira inquietante que acontece ali por dentro. Nós, os anormais, somos a coceira. Nós incomodamos, não é? É, eu sei.

Vai ver a doideira incomoda porque vem de dentro, porque dispensa o filtro. Na minha insana opinião, a única coisa que realmente precisa de filtro é café. Gente não. Gente é pra ferver junto da água. Ah, se as crianças pudessem continuar bebendo do café da infância... 

Juro que amanhã saio na rua e grito: "Uni-vos, gente doida! Dai as mãos, povo maluco!". Alguém vai querer me prender, mas ah... A verdade é que ninguém sobrevive à sobriedade.

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