Sacia | um conto de terror em partes | parte 4

Eu conseguiria reproduzir fielmente quase tudo que li naquele diário, feito decoreba de apresentação de trabalho na escola. Algumas daquelas palavras me tomam a cabeça ainda hoje. Mas prefiro deixar aberta outra possibilidade, como deixei a do caminho pra represa. Um dia talvez eu conte, inclusive, todas as sensações mais variadas que percorreram meu corpo púbere durante a leitura.

Mas enfim, em resumo:

Não que Clarice gostasse de crianças antes, mas depois do episódio de socar uma criança sem querer, sem saber e sem motivo, digamos que a situação não melhorou. Para quem não gosta de crianças, talvez a pior possibilidade que exista é a de conceber alguma. 

Certo dia enquanto dormia, Clarice começou a sonhar que se afundava no meio de muita água. Primeiro a água era clara, depois vinha escurecendo. Teve a sensação de sufocar ainda dormindo e não conseguia despertar. Até que a água começou a ficar vermelha e no ápice de um desespero sonâmbulo, era acordou ofegante, com a boca aberta e os olhos arregalados. Haviam bebês espalhados por todo o seu quarto. Bebês nus, chorando. Chorando não, berrando! Clarice tampou os ouvidos e começou a gritar! Grito nenhum acalma outro grito, claro. Os bebês responderam com a garganta mais forte que conseguiram. Clarice pensou então em fugir, mas quando levantou o lençol que a cobria, o terror só aumentou: a cama estava ensopada de sangue, um sangue que vinha dela e sujava suas coxas. Ali, espalhados por sob o lençol vermelho, haviam mais bebês, mas esses não eram iguais ou outros nem choravam. Pareciam não estar totalmente formados, estavam... Eram fetos? No sonho Clarice desmaiou, em casa Clarice abriu os olhos e encarou o teto sem coragem de se mexer. 

Aquele foi o primeiro sonho de Clarice que não seria apenas um sonho. Por todo o quarto se espalhava uma areia muito fina, como  se os bebês simplesmente tivessem virado pó. Sobre a cama, bom. Toda menina fica menstruada uma primeira vez na vida. Apesar de tudo, aquela menina não era assim tão diferente.

Me permito fazer uma pausa. Obviamente saiu um "credo!" da minha boca de menino pré adolescente quando pensei que segurei nas minhas mãos um pote de areia de bebê de pesadelo. Pior, aqueles três potes eram de menstruação... da minha tia?! Meu estômago merecia um prêmio por não ter eclodido leite com detergente de novo. Pulei algumas páginas, porque estava em dúvida se queria continuar sabendo daquelas coisas de menina. Mais tarde, já adulto, li o diário completo, é claro. Aliás, sim, guardei a caixa toda. Mas isso eu conto mais pra frente.

De volta ao diário:

Minha tia se casou com Alan. Pelo que li no diário ela me parecia uma pessoa normal, um tanto chata sim, e às vezes incompreendida. Haviam algumas páginas dizendo de outras pessoas que a olhavam estranho, ela justificava esse comportamento dos outros na falta de disciplina no seu próprio comportamento quando criança. Mas algumas respostas que eu queria quanto a isso, o diário não me deu. Depois de uns anos casados, "meus tios" resolveram que queriam filhos. Ué, mas ela não falou que odiava crianças, fez um drama danado com um pouquinho de sangue, e não sei mais o quê?, pensei. Pois é. Minha mãe sempre diz que a vida muda as pessoas, que quando eu fosse adulto não seria mais aquele menino que ela tanto amava. Isso servia pra ela como uma justificativa pra me espremer até eu ficar muito vermelho, bravo e sem ar. Mas hoje entendo que ela estava certa. Entendo pela minha tia e por mim também.

Eles começaram então as tentativas para terem um filho (como todo casal tenta, me poupe de descrever - mesmo meus jovens hormônios rebeldes não tendo me poupado de ler). E foi então que começou um sucessão de abortos. Por um tempo Cecília parou de escrever no diário sobre ela e seus dias. O caderno virou páginas e páginas seguidas apenas com a palavra "aborto", escritas em caligrafias de temperamentos e tamanhos diferentes e uma numeração bizarra. Na última página assim haviam três potes desenhados e a palavra "fim". 

Ok, não sei o que é pior. Pensar que eu tinha ali ao meu lado três potes de menstruação de tia velha ou três potes de bebês dissolvidos de tia velha que assombrava represa. Cacete (era o palavrão que nós mais usávamos naquela época e, sinceramente, eu precisava muito de um palavrão nesse momento, sentado ali no chão do meu quarto com essa caixa aberta e com meu corpo travado pra não olhar pro lado e ver aqueles potes). Cacete!

Por um momento me perguntei o que eu queria com aquilo tudo. Eu tinha acabado de descobrir que uma das figuras da represa - uma criança, aliás. Por que ela fica ali com a idade de criança? - de quem toda a cidade fala é minha tia de quem eu nunca tinha ouvido falar. Aí eu acho - ok, eu procuro - uma caixa com as coisas dela e descubro um monte de coisas... nojentas, estranhas, esquisitas, eco, credo, e todas as palavras afins. Fechei o caderno por um minuto, com o meu dedo fino marcando a página onde estavam desenhados os potes. Crianças também olham pro nada e refletem consigo mesmas. Pelo menos eu criança fazia isso com bastante frequência. Pensei que fosse melhor largar aquilo pra lá, pelo menos por hoje, e depois decidir direito se continuaria a leitura ou não.

Pensei em contar pra minha turma, afinal eles estavam na represa comigo quando deixamos de ser crianças juntos. Mas aquilo era outra coisa que eu também gostaria de refletir primeiro. Abri o caderno de novo com um suspiro. A próxima página começava com a palavra "orfanato", como um título. Foi suficiente pra eu concluir minha rápida e profunda reflexão: vou continuar lendo.

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