Eram as crianças da represa na foto que balançava entre minhas mãos, a menina e o menino. Precisei criar saliva pra poder perguntar à minha mãe quem eram.
- Sua tia Cecília e o marido dela, Alan. Ninguém com quem você deva se preocupar, são fotos antigas.
- Minha tia? Mas eu nunca ouvi falar de nenhuma Cecíl...
- Ela já não existe mais, morreu há anos. Dá aqui a foto. Já disse que não é nada com que você precise se preocupar. Vai dormir que já está tarde. Escove os dentes!
Se a menina da represa era minha tia... a última coisa que eu faria era dormir - apesar de ter escovado os dentes pra despistar melhor minha mãe. Assim que a casa se apagou, fui descalço à cozinha, onde ficava uma portinha que dava acesso ao porão. Coloquei um copo com leite na mesa, crianças custosas aprendem a ser precavidas. Abri a porta devagar e desci.
Eram caixas e mais caixas, algumas com meu nome, outras com o nome da minha mãe e algumas sem qualquer identificação. Senti uma gota de suor escorrer pelo meu rosto quando vi uma aranha maior que a minha mão andando pela caixa da árvore de Natal. Por que é que as pessoas constroem porões, afinal!?
Comecei a abrir as caixas sem identificação primeiro, fazendo o menor barulho possível. Não encontrei nada além das famosas "coisas de adultos". Documentos e mais documentos que eu não fazia ideia do que seriam. Alguns da casa, outros do carro, exames médicos. Isso é da minha escola? Achei algumas fotos antigas da minha mãe e outras do meu pai. Na verdade por um momento até pensei que fosse eu na foto. Genética é uma coisa estranha.
Não sei quanto tempo passei no porão, mas o sono só não me abateu porque havia uma corrente de adrenalina percorrendo todo o meu corpo magrelo. Minhas mãos tremiam de vez em quando e o suor dos meus pés acabou grudando coisas mal cheirosas que devem ter sido eliminadas por intestinos de roedores. Na hora não liguei, mas depois notei o quanto aquilo fedia e demorava pra sair. Quando abri uma caixa sem identificação foi que tive o que, mais tarde na faculdade de medicina, entenderia se chamar taquicardia.
A caixa tinha objetos simples, que à primeira vista não chamariam atenção de ninguém. Três potes, dois cadernos, algum papel dobrado e uma fita. Por que eu me assustei tanto se eram todos objetos comuns? É, no caderno estava escrito Cecília. Eu queria levar a caixa inteira para o meu quarto, não sei quanto tempo levaria para estudar tudo que havia ali. De fato não era uma caixa muito grande, mas poderia ser um tanto pesada e o trajeto pelas escadas seria barulhento demais, mesmo para os meus pés descalços.
Tampei a caixa deixando ali dentro um pouco da minha ansiedade de menino, respirei fundo, o que foi uma péssima ideia considerando o fedor daquele lugar fechado, e voltei a subir as escadas. Meu copo de leite estava lá na mesa. O que me deu uma ótima ideia.
Ninguém nunca morreu por beber detergente. Pelo menos eu nunca tinha ouvido falar e certamente tinham coisas piores que se comia normalmente. Como beterraba, por exemplo, que com certeza é mais mortal que detergente. Peguei o pote na pia e coloquei um pouquinho no meu leite. O gosto era de suco de caju. Bastante desagradável, mas nada que fosse impossível. Repeti isso por umas quatro ou cinco vezes. Não sei dizer quanto de detergente eu bebi, mas foi suficiente pra executar meu plano.
Já era madrugada quando abri a porta do quarto dos meus pais e um imenso vômito contou pra eles que eu não poderia ir à visita matinal à vovó no asilo. Precisava ficar em casa vomitando, uma pena. Minha mãe trocou meu pijama e me mandou pro banho enquanto meu pai limpava a poça com cheiro de leite azedo que deixei no chão. Dei um conferida rápida pra ver se tinha alguma espuminha, mas meu vômito não me entregou.
- Podem ir, mandem um abraço pra vovó. Consigo ficar sozinho, não vou vomitar mais, só estou fraco mesmo.
Mas forte o suficiente pra subir uma caixa pelas escadas assim que vi pela janela o carro dos pais virar a esquina. Sentei no chão e tirei a tampa com cuidado, respirando fundo pras minhas mãos não voltarem a tremer. A fita era amarela, mas era uma fita comum, não tinha nada escrito nem nada de diferente de qualquer fita amarela que se compra em lojas que a minha mãe gosta. Deixei do meu lado. Levantei o primeiro frasco, tinha um líquido vermelho escuro ali dentro, era um tanto espesso. O segundo pote igual, o terceiro tinha alguma coisa que eu não entendi. Parecia um pote de areia.
Abri o papel dobrado. Eram imagens que eu não entendia, riscos feitos muito rápido, alguns pretos, outros azuis. Algumas linhas, outras coisas que pareciam ondas. Um desenho que uma criança de uns três anos teria feito. Também não significou nada pra mim e deixei de lado junto da fita.
Quando abri o primeiro caderno, entendi que aquilo que eu segurava era, na verdade, um diário. Eu tinha encontrado o diário da menina da represa. Aquilo foi suficiente pra eu providenciar uma última poça de leite azedo.
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