Sacia | um conto de terror em partes | parte 2


Toda Candeias conhecia Cecília. Afinal, era função dos meninos serem super agitados e mal educados, mas aquela menina superava qualquer um. Nascida em boa família, teve uma infância normal até o fatídico dia do parque.

Além de Cecília, outra pessoa que toda Candeias conhecia era Banzé. Impossível dizer se essa pessoa era homem ou mulher, o mais famoso tipo popular da cidade também era conhecido como "A Bruxa" ou "O Corvo". Sempre vestida com muitas camadas de roupas velhas que claramente não eram suas, sujas e fétidas, Banzé andava pela cidade conversando sozinho e vez ou outra subia numa pedra do Parque - já conhecida como seu palanque - pra dizer profecias. Se elas se realizavam ou não, bem...

Cecília brincava no parque quando sua bola desceu em altíssima velocidade até a beirada do lago. A menina tinha cerca de sete anos, não sei bem, ninguém nunca me contou a história direito e, claro, eu não estava lá. Ao parar à margem d'água, começou a fazer movimentos com a mão para que a bola retornasse. Quando conseguiu tocá-la outra mão se sobrepôs à sua. A mão era suja, com unhas quebradas e disformes e o rosto que apareceu por entre um arbusto foi o de Banzé.

- A pequena devoradora, a cria sem pais! Pensei em algo melhor do que uma criança esmirrada. 

Cecília não se movia, apenas olhava aquela pessoa com seus olhos de criança arregalados.

- Você sabe que não tem pai e mãe, não é? Você sabe que é a criança de nenhuma e de várias crianças, não é mesmo? A sem cria. A menina que adota. Vê se cresce logo, eu já cansei de andar aqui.

"Pobres pais de Cecília" penso que é o que eu deveria dizer. Mesmo porque, daquela criança ninguém nunca mais teria pena, apenas raiva ou, no melhor dos sentimentos, indiferença. Depois de conseguir sair correndo e gritando daquele encontro com Banzé, Cecília começou a não mais acreditar que era filha dos seus pais, teve acessos de raiva estranhíssimos onde batia e se debatia com tudo à frente. Psicólogos e psiquiatras foram aos montes, todos de Candeias e alguns de fora. A menina passou um tempo internada em algum lugar que não sei dizer qual foi. Acredito que ninguém saiba, os pais não falaram a ninguém. Voltou de lá menos agressiva, mas não menos má.

Cecília cresceu com cara de atrevimento. Retrucava todas as pessoas que discordassem dela por qualquer motivo, na escola sempre se envolvia em brigas. Os pais tiveram anos exaustivos e, de acordo com as más línguas de Candeias (mas não são todas?) o divórcio aconteceu por causa da menina, e nenhum dos dois fazia questão da guarda.

A única pessoa com quem Cecília conseguia conviver bem era Alan, talvez por causa do interesse que ele nutria na menina. Passaram anos sendo únicos amigos, a maldade da menina ao mesmo tempo assustando e prendendo a curiosidade do menino. Eram uma dupla conhecida na escola e não foi surpresa pra ninguém quando, aos treze anos, chegaram de mãos dadas e fizeram questão de se dar um beijo desajeitado no meio do pátio, na frente de todos. A cena rendeu uma visita dos pais à escola, nada com que todos não estivessem acostumados. Mas naquele dia, na saída, antes de atravessar a rua, Cecília travou na calçada. A configuração má do seu rosto deu lugar a um espanto tão intenso que seus olhos, que nunca choravam, estavam marejados. Alan perguntava o que havia acontecido, mas não obtinha resposta nenhuma. 

Do outro lado da rua, estava parada Banzé, com um sorriso no rosto que logo se abriu para um riso maldoso e uma gargalhada. O gralhar rouco de Banzé tirou Cecília do choque, que atravessou a rua em disparada e se jogou acima da pessoa. Só depois de desferir muito socos é que quatro adultos conseguiram tirá-la de cima... da criança desacordada. Cecília havia atacado um pobre menino de uns sete anos, que vinha andando de muletas da calçada. Por um momento Cecília só conseguiu ouvir a mãe da criança:

- Veja o que você fez com o meu filho!!! Espero que você nunca tenha uma criança, pureza alguma merece sair de você!!!

Atordoada, a última coisa que Cecília viu antes de ser forçada dentro do carro de um adulto que a levaria em casa foi Banzé, gargalhando mais atrás na calçada:

- Cecília, a devoradora, a cria sem pais! Nunca mãe, sempre sem cria! 

Tudo começava ali.

| continua |

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