A cidade onde se passa essa história é Candeias, famosa pela represa que, além de abastecer toda a região com água, abastece também o imaginário de quem passa por ela. Outro aspecto sobre Candeias que vale a pena ser mencionado, é que nós temos hoje a maior taxa de desaparecimento e mortalidade infantil do país. Bizarro, não é? Não pra mim.
Certo dia, na minha transição da infância para a juventude, fui com minha turma de amigos para a represa. O rito de passagem para virar homem contava com a água de lá pra enorme maioria dos rapazinhos da cidade. É claro que o acesso era restrito, então tínhamos uma aventura pela frente. Talvez alguém me convença a contar sobre o caminho em detalhes algum dia. Há coisas que acontecem entre rapazes e suas turmas que ficam entre rapazes e suas turmas... Mas enfim.
Fato é que, de fato, a represa muda tudo. É como se fosse um pacto secreto e estabelecido há tempos. Entrando na água, olhávamos uns nos olhos dos outros percebendo que a brincadeira da vida havia ficado à margem daquela água. Dali pra frente, mesmo que não homens ainda, não éramos mais crianças. São engraçadas as formas que a vida e o tempo encontram de nos lavar de determinadas fases. Ali, sem nada de extraordinário acontecer, sabíamos que alguns medos não poderiam ser mais sentidos ou, se fossem, não poderiam mais ser compartilhados.
Digo de medo porque no fundo nenhum de nós estava confortável de estar ali naquela água. Fazíamos por obrigação, pelo rito de passagem que os meninos mais velhos zombariam de nós se não fizéssemos. Mas todos conheciam as histórias sobre a represa, as visões. Diziam que todos que passavam por ali viam duas crianças bastante estranhas sorrindo à margem. Seriam fantasmas, espíritos? Não sei. Em Candeias todo mundo era devoto demais pra acreditar nessas outras coisas.
O primeiro a gritar foi Luiz. Da boca dele não saía mais nada além da primeira vogal nos mais variados tons da combinação entre medo e puberdade. Os outros de nós viramos o rosto para onde os olhos vidrados do nosso amigo apontavam. Elas estavam mesmo lá, as crianças. No segundo seguinte éramos um coro de gritos e pernas batendo dentro da água. Menos eu. Não é inusitado, em situações de muito medo ou susto, normalmente eu travo. Peguei isso da minha mãe. Não conseguia desviar os olhos daquelas figuras, ainda que quisesse. Me mantinha os encarando e boquiaberto. Agradeci pela água escura da represa, ninguém viu o líquido amarelado que minhas partes abandonaram ali.
Foi Rafael quem me puxou pelo braço, depois de me dar o primeiro tapa na cara que recebi na vida. Deu trabalho explicar pra minha mãe de onde veio aquela marca vermelha de dedos nas minhas bochechas, A represa era segredo, as crianças eram inacreditáveis e dizer que foi o Rafael era sinônimo de encrenca entre pais. Nenhum grupo de amigos quer encrenca entre pais. Saí puxado da represa. Pegamos nossas roupas o mais rápido possível e fomos nos vestir já na beira da estrada, bem distante de tudo.
Voltamos sem dizer absolutamente nada. Uns tremendo de frio, outros de medo. Mas o silêncio era o mesmo pra todos. Nenhum caminho que percorremos juntos, e já foram muitos, parecia tão longo e demorado quanto aquele. Não sei o que estava na cabeça dos outros, mas na minha era só a imagem das duas crianças. Os olhos muito escuros, as roupas com lodo e a aparência... encardida. Parecia que estavam há anos de molho naquela represa. A pele, aquilo foi o que mais me incomodou. A pele era enrugada e a cor era estranha, como se eles estivessem há anos afogados mas sem se decompor. Aquela pele me atormentou mais do que eu pensei. Sempre que fica muito tempo na água e olhava para os meus dedos, se eles estivessem enrugados me percorria um frio na espinha. Nas piores noites eu sonhava que me olhava no espelho e via meu rosto com aquela cor, aquela textura. Nunca contei aos meus pais o que eu sonhava que me fazia acordar gritando.
Não precisamos de mais do que uma breve conversa no caminho pra escola pra entender que, do nosso grupo, ninguém falaria nada sobre o ocorrido. Poderia jurar que na cabeça de cada um havia uma batalha para acreditar que na verdade aquilo nunca havia acontecido. Os dias seguiram mais silenciosos do que antes. Talvez o ritual de passagem tenha surtido efeito, afinal.
Aos poucos a história se perdia, voltávamos a ter longas conversas e meus sonhos voltaram ao normal. Até que minha mãe teve a brilhante ideia de organizar as antigas fotos de família. Não me interesso por isso, claro. Nenhum garoto da minha idade se interessa. Mas foi inevitável não ver uma foto enquanto subia para o meu quarto. Parei no degrau, olhei mais um pouco. Dei meia volta, peguei a fotografia no chão, olhei pra ela de todos os ângulos que consegui pensar. Até que veio aquele momento que eu conhecia, o choque. Meus olhos se arregalaram e, mais uma vez, eu não conseguia me mexer. Por sorte minha bexiga estava vazia e minha mãe olhando pro outro lado.
Eu reconhecia aquele rosto na foto.
| continua |
Aimeudeos, me lembrou do "O Homem de Giz" que li recentemente. Muiito bom, qnd sairá mais? Qnts capítulos?
ResponderExcluirObrigada!
ResponderExcluirSemana que vem sai a próxima parte.
Obrigada!
ResponderExcluirSemana que vem sai a próxima parte.