Escuridão crônica


Quem tem problemas com a noite, seja bem-vindo ao meu abraço. Não me agrada o escuro, não me agrada o barulho, não me agrada o silêncio, e menos ainda a falta de limites. A quantidade infinita de possibilidades que a noite traz, me atormenta. Os fantasmas que ela liberta me perturbam incansavelmente. Quantas noites já passei sem dormir? Desisti de contar há anos, não saberia nem estimar. Minhas olheiras são fieis companheiras que certamente jamais me abandonarão. Ao contrário da luz, que insiste em apagar. Sem a claridade, do sol ou da lâmpada, sinto coisas demais, e essa sensação de demasia me extrapola a mente. A noite me faz sentir. E qual pessoa sã não tem medo de se permitir sentir? Mente quem disser que tem coragem. A coragem é a primeira coisa a ser engolida pela escuridão. Depois da coragem... Tudo uma hora se vai. A escuridão é faminta demais. Quantos jovens se jogam em latas de lixo quando cerra-se a noite... Quantos velhos fecham os olhos com a luz e não os acendem mais... Quantos eus ficam sozinhos tendo os pensamentos do mundo e ouvindo os ruídos do... do quê? O que resta lá fora quando aqui está escuro? Aqui dentro eu conto os dias, nas paredes, nas rugas, na pele e no peito. Eu conto os dias até que a escuridão venha me engolir também. Talvez, finalmente dentro dela, haja conforto. Ali, lá no fundo da sua garganta (será dentada?) estão todas as minhas coisas que foram engolidas. A escuridão tem um ótimo estômago, insuscetível a náuseas e vômitos. Nada meu que foi, voltou. Mas vou ficar aqui sentindo tudo. Porque quando eu sinto o escuro, quando não há sombra de luz, eu sinto o infinito. E, quem sabe, é nele que eu gostaria de estar. Afinal, pra que ter fim? Mas ainda não é o tempo, ainda não chegou a hora, sei porque está ficando claro. Sei porque se vai mais um terror noturno e volta a sensação de fogo, do queimar. Volta a enorme redoma de luz que não se permite olhar. Eu risco mais um traço na parede do meu porão. Ainda não foi dessa vez. Como li um dia: "O sol que ainda não nasceu mal sabe dos meus sonhos". Permaneço acordado, até a escuridão me permitir sonhar de novo.

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