Existem lugares onde vamos sozinhos. Mudanças feitas sem ajuda e caixas que não pedimos pra ninguém carregar. Em uma dessas caixas estavam os seus sapatos, os sapatos de Valquíria.
Vivi uma abastada vida de limitações por ser mulher em uma família conservadora. Desde o vestir, ao falar e fazer, dos horários aos contatos, dos resultados e aparências, tudo me parecia uma enorme gaiola. Eu era Estela, mas encontrei em Valquíria o meu primeiro grande amor.
Foi certo dia, já adulta, voltando do trabalho, que a encontrei. Estavam fazendo obras no meu caminho de costume e tive que desviar meu percurso para a chamada zona boêmia da cidade. Um eufemismo pro lugar onde são postas à margem as mulheres que tem seu corpo como objeto de trabalho. A forma como se vestiam, a forma como andavam, a forma como olhavam e falavam... Tudo aquilo me era muito estranho. Um estranho confortável, um estranho muito particular.
As cenas que vi de dentro do carro naquele dia me perpassaram a cabeça por algumas longas semanas. Até que decidi comprar e compor Valquíria. Um sapato de saltos tão altos como nunca havia usado, um vestido justo, uma peruca morena. Estacionei o carro num lugar que me pareceu seguro. A motorista foi Estela, mas Valquíria desceu do carro e ganho a rua.
Valquíria caminhava firme, como se os saltos altíssimos tivessem nascido em seus pés. Quem primeiro empurrou Valquíria contra uma parede foi Verônica, questionando a invasão do seu ponto sem qualquer aviso prévio.
- Eu...
Qual era a voz de Valquíria? Àquela pouca altura eu ainda não sabia. Mas Verônica, como todas de nós, era sagaz. Ela logo entendeu que algo não estava no lugar, só foi necessário esclarecer que algo estava sendo posto no devido lugar.
Valquíria nunca teve nenhuma intenção de se prostituir. A intenção de Valquíria era conhecer o que é ser mulher quando ser mulher se apresenta como a única opção de ser, de existir. Ela perdeu as contas de quantas histórias ouviu das suas companheiras, de quanto assédio teve que se desvincular. De quantas mães, filhas, irmãs e escravas passavam a ela suas linhas. Linhas que, em algum momento ela se decidiu por escrever.
Foi voltando pro carro numa madrugada qualquer que Valquíria encontrou o segundo grande amor de Estela: Marcos. Estela ainda era Valquíria quando trombou com Marcos à margem da boemia. Ele a tratou com gentileza, algo pelo qual Valquíria não esperava e Estela estranhou.
E aqui estão os sapatos. Após longos anos juntos, Estela e Marcos se casariam e sairiam do país. Valquíria, que em todo esse tempo nunca havia deixado de ser, naquele momento, deixaria.
Estela guardou os sapatos de Valquíria dentro da caixa e colocou por cima um livro. Desceu a rua que tanto conhecia e procurou por Verônica. Entregou-lhe a caixa acompanhada de um beijo e um longo abraço. Na caixa estavam os sapatos de Valquíria e o livro Valquírias, que contava tantas histórias escondidas, esquecidas ou nunca lidas.

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