As manhãs são a pior parte. É como se a noite fizesse folha branca que tudo aceita. Tudo o que eu quero, o sofrimento não. Abrir os olhos pela manhã é ter que rememorar toda a realidade escurecida. Todos os dias eu calço os meus sapatos. Os meus sapatos. Escolho acordar por mais um dia, ainda que em espírito latente e alma dormente. Em algum momento já quis gritar, mas minha garganta ainda dói da última vez. Há passos que não seguimos. Cada um calça os seus sapatos, do tamanho que lhes convém. Cada um caminha até onde dá. Se eu pensar em mar a metáfora fica mais bonita. Cada um, com seus sapatos, caminha até onde da pé. Se a beleza dizimasse a dor... De repente tudo ofusca, tudo dói a vista. As noites são boas, o fechar dos olhos é acalento. As manhãs são a pior parte necessária. As manhãs acumuladas criam novos dias. Distantes... Onde a cicatriz diz apenas de onde o sangue passou, como um bordado no tecido do tempo.

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