Então eu escuto


Não faz muito, decidi calar-me. Eu, pessoa comum, sem qualquer moléstia aparente, não mais falaria.
Pensem no susto! Da minha família, dos meus amigos. Nessa época já não trabalhava mais, o que foi um consolo e um estímulo. Ninguém entendia, eu não me dei ao trabalho de explicar. Explicações tendem a estragar tudo. Sempre.
Fui levado a incontáveis médicos. Psicólogos, terapeutas, geriatras, oncologistas. Otorrinolaringologistas.
Nenhuma surpresa para mim. Eu não tinha nada. Minha garganta estava normal, nenhum calo nas minhas cordas vocais. Meu cérebro em pleno funcionamento, equiparado ao jovem que já fui.
Certo dia me sentaram na sala de casa, com todos ao redor. Minha esposa à minha frente. Falavam, falavam, falavam... Choravam e gritavam às vezes. Eu precisava dizer alguma coisa!!! Não, não precisava. Nem disse. Me ofereceram blocos de papel, caneta. Eu não queria emitir palavra, alta ou escrita. Apenas não queria.
Olhei nos olhos de cada um, na esperança de dizer todo o necessário para me deixarem ser, era importante.
Meu neto, pequeno, único que pareceu entender, veio até mim e me abraçou. Isso acalmou os ânimos da maioria, mas precisei conviver por muito tempo com caras fechadas.
Meu neto não. Ele se sentava ao meu colo e passava as mãozinhas pelo meu rosto, pelas minhas mãos, segurava meus dedos. Depois se recostava e olhava o jardim comigo. Meus diálogos preferidos eram esses com meu neto. Ele entendia tudo. Nós entendíamos.
Depois de tanto tempo, agora sim, me presto a algumas explicações mais amadurecidas. 
Certo dia, me sentei ao jardim. O rádio ligado aos meus pés. Nunca suportei o silêncio, sempre fui a pessoa que falava alto e demais, quando não havia com quem conversar, o fazia sozinho ou ligava o rádio. Nunca o silêncio.
Nesse dia no jardim, um pássaro diferente pousou em uma de minhas laranjeiras. Via que ele abria e fechava o bico, mas não conseguia ouvir. Curioso para saber que som emitia aquele pássaro diferente, abaixei um pouco meu rádio. Não adiantou. Desliguei o rádio e me levantei da cadeira.
- Psiu, psiu! Vem passarinho!
Minha voz soou como um borrão escuro em frente meus olhos, feito um zunido nos meus ouvidos. 
Pensei que estava, naquele momento, sofrendo algum mal da cabeça ou do coração. Morreria no jardim feito Vito Corleone, mas sem netos, acompanhado pelo pássaro azul de Bukowski.
A vida pode ser mesmo desgraçada até nos momentos de inconveniência.
Mas o pássaro se aproximou.
- Quem é...
Pela primeira vez na vida, eu não queria falar. Minha voz me atordoava. Pensem no quanto me senti confuso! Como eu não iria querer falar?! Falar era o que eu fazia de melhor!
Estendi a mão segurando a grade entre mim e os canteiros. O pássaro veio e fez pouso sobre ela.
Ele abria e fechava o bico insistentemente. Mas mesmo com o rádio desligado, minha boca fechada, eu não ouvia. Era como se ele emitisse silêncio.
Foi quando meu coração aqueceu. Pois ouvi dentro do peito o som que ele emitia, descortinei o silêncio, esse estar sozinho do qual fugi toda minha vida.
Quanto mais eu descobriria nos outros silêncios? Nos outros cômodos, nas outras pessoas. 
Iniciei meu caminho de quietude. Hoje posso afirmar que nunca havia conhecido tão bem minha esposa, meus filhos e netos quanto durante o tempo que silenciei.
As palavras nascem no peito pra enganar e saem à boca para dissuadir. O silêncio, não. O silêncio é menino vendo mar em poça d'água.
Quando colocaram minha nova netinha recém nascida em meus braços, depois de muito tempo em quietude, baixei ao seu ouvido e sussurrei:
- Seja bem vinda!
Mas ela ainda entendia o silêncio.
Sabe... O tempo envelheceu algumas palavras que eu tinha.

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