E se gatos não vomitassem bolas de pelo?


Alguns dias são sempre mais difíceis que outros. Hoje, dezessete de novembro de dois mil e seis, foi um deles.
Logo pela manhã queimei minhas torradas porque me distraí lendo no celular que prenderam meu fornecedor de drogas. Que droga. Espero que seja um esquema organizado e logo apareça outro.
Indo para o trabalho, fiquei parado no trânsito por cerca de 20 minutos. Tudo porque alguém atropelou um ciclista e eu ainda não criei o hábito de sempre consultar o GPS antes de sair de casa.
Dos cinco pacientes que atendi pela manhã, três estavam com essa doença contagiosa e certamente morreriam. Não tendo passado pra mim, ótimo.
No almoço, uma pessoa da mesa ao lado engasga. Tentando ajudá-la, fazendo a manobra de nome que ninguém entende, ela acabou vomitando no meu prato ainda quase intocado. Fui pra um fast food.
Nada melhor que o entupimento das veias pra nos fazer pensar melhor. Minha vida estava horrível, nada como eu queria. Sentado naquela mesinha de metal tomei algumas decisões bastante lúcidas com meu refrigerante de cola. Pra mim estava tudo certo. Chega de ser médico pra atender a expectativa dos outros, chega desse casamento que eu nunca quis, chega de academia, chega de comidas saudáveis, chega, chega.
Chego em casa. Pronto para preparar minhas malas e cuspir um divórcio na cara da minha esposa. Até que ela me mostra um papelzinho às lágrimas. Ela estava grávida.
Pronto. Lá se vai meu divórcio, lá se vai minha comida de fast food, lá se vai minha viagem pelo mundo, lá se vai meu eu...
Poderia ser pior? Eu poderia ser o cara que foi preso, ou o ciclista atropelado, ou os pacientes a morrer, ou quem quase morre num engasgo. Pior, eu poderia ser a mãe. 
Cada um com seus problemas. Fui preso a um destino que traçaram para mim, atropelado por vontades alheias se sobrepondo às minhas, morri diversas vezes nesse caminho perdido e engasguei com tudo que não disse pra mudar qualquer coisa. Eu sou a mãe de todos os meus erros. Eu sou a mãe que me abortou de mim. 
E sabe o que mais me irrita? O sol. Que não está nem aí, fica no centro de tudo como se nada fosse mais importasse, se nada mais acontecesse.
O sol se pôs, como se põe todo dia.
E aposto que vai nascer amanhã de novo.

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