Por favor, parem de escrever


As pessoas costumam se demorar na discussão inútil de que se a vida fosse perfeita seria sem graça. Bom, eu sou feliz com algumas dores. Sobrevivo normalmente com farpas nos dedos, chutando quinas, tropeçando nos meus próprios sapatos. Às vezes tenho uma dor de cabeça ou outra, uma diarreia estranha, mas nunca quebrei nenhum osso. 

Mas existe essa dor que me incomoda profundamente. Com essa eu digo, sem dúvida e sem remorso, que não suporto viver. A dor da história mal contada! Ai, meu fígado!!! História de gente enxerida, invenção de pessoal curioso e, pra mim o maior pecado de todos, livro mal escrito. 

Faça-me o favor! Ninguém obriga ninguém a se prestar ao suplício da escrita. Se alguém quer ser escritor, que o seja por força de vontade e, se vivêssemos num paraíso, por puro dom da escrita! Ah, quem me dera se todos os escritores fossem escritores por dom e não por teimosia! 

Escritores teimosos tendem a ser egocêntricos. Ou melhor, pessoas egocêntricas dão escritores teimosos. Na primeira página do livro já conseguimos ler "escrevi isso pra mim, não pensei em você, idiota leitor, não quero saber". Daí pra frente, o fígado que aguente! É gente passando coração partido pro papel, inventando história sem sentido e amarração, uns personagens estranhos e impossíveis, umas palavras que eu juro que não existem! Eu, enquanto revisor, gostaria profundamente de escrever ao final destes protótipos: Existem dois grupos de pessoas no mundo, as que sabem escrever e as que não sabem. Adivinha em qual grupo você está? Há! Mas estou velho pra isso. 

Talvez eu emita um comunicado, não sei. Porque das dores da história mal contada, o egocêntrico poderia desistir de ser escritor e migrar pras outras categorias: história de gente enxerida ou invenção de pessoal curioso. Pensa só, ter um vizinho que dá notícia do bairro todo! Que sabe de uma palavra da vida de alguém, mas espalha uma frase inteira? Entretenimento garantido! É só tomar o café na varanda, escutar as anedotas, rir bastante, voltar pra dentro de casa e recuperar a cabeça com histórias bem escritas. 

Quem disse que o mundo com empatia é melhor, errou feio! Com certeza não era nem escritor, nem revisor. Mas tudo bem, feito o desabafo, preciso pagar as contas e estou velho. Vou continuar revisando textos. Ai, minhas dores. Aguente, meu fígado!

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