Ontem eu vi o último raio de sol pela minha janela. Mal sabia eu que ele não voltaria. Nós, todos nós, mal sabemos de nada. Quem iria sonhar que um outdoor cairia inteirinho sobre minha sala?
Me conforta saber que eu sempre fui contra? Não. Porque eu sempre sou contra tudo. Mas quando vieram me procurar pra colocar isso aqui no restinho do meu terreno que eu chamo de quintal, já bati o portão na cara do sujeito e disse que não. Aí me mandaram uma carta que sugeria um valor muito interessante, meu não perdeu o til. Depois de entender que receberia aquele valor mensalmente, meu não perdeu o o e aceitei na hora.
Aquele painel gigante ficou de costas pra minha sala, já que moro na esquina. Tampou tudo o que podia, exceto um raio de sol. Um único e fininho traço amarelo brilhante ainda passava pela minha janela. Peguei as minhas plantas, que eram poucas devido à minha falta de paciência, e as coloquei numa linha reta seguindo o traço amarelo. Quando sentia frio, empurrava as plantas pra lá e me deitava naquele chão linearmente iluminado.
Foram anos recebendo pessoas pra trocar as mensagens daquela placa engolidora de sol. Até que chegaram o fim dos tempos. Sim, porque aquela chuva absurda só pode ser o prenúncio de um apocalipse qualquer. Eu só ouvi o barulho de ferro vertendo. Depois da minha casa se quebrando.
Não concordei desde o começo, mas a indenização foi bem mais gorda do que o último raio de sol que passava pela fresta da janela. Tive que morar em outro lugar. Logo na primeira manhã, discordei. Fui até a sala, abri a janela e tinha um sol horroroso queimando meus olhos. Me vesti, peguei meu carro antigo e fui.
Quero que instalem um outdoor no meu quintal.

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